Por dezoito anos, Evandra Martins Bento tocou a assessoria de eventos Requinte com um pé fora da própria empresa. Ela atendia noivos e debutantes nas horas vagas. Ao mesmo tempo, mantinha o emprego formal, porque sair do CLT significava abrir mão da rede de segurança que pagava as contas. Neste ano, porém, ela decidiu inverter essa lógica. Largou o vínculo formal, correu o risco de sair do CLT de vez e dedicou-se em tempo integral à Requinte. O resultado veio rápido: a empresa cresceu mais em poucos meses do que em boa parte dos anos anteriores somados.
A trajetória até esse momento não foi linear. Paulistana, Evandra chegou a Pernambuco em 1996, atrás da família paterna, cearense, e da curiosidade sobre o Nordeste que a avó lhe havia despertado. Sem emprego à vista, alugou boias na praia de Boa Viagem durante um ano. Era a solução possível para pagar as contas enquanto procurava recolocação. Depois vieram cinco anos como terceirizada na Petrobras. Em seguida, um cargo de analista administrativa na antiga Rhodia, empresa em que passou a organizar eventos corporativos. Foi ali que descobriu, sem saber ainda o nome disso, a vocação de cerimonialista.
A Requinte nasceu em 2008, batizada por um convite quase acidental. Uma amiga viu Evandra coordenar um evento e apontou um talento que ela mesma ainda não reconhecia. "Até então, eu não sabia o que era cerimonialista", lembra. A partir daí, foram dezoito anos de mercado, construídos degrau por degrau. Houve, inclusive, resistência de concorrentes locais, que questionavam o espaço de uma paulistana no setor pernambucano. Diante disso, porém, ela nunca abriu mão do próprio raciocínio: "aqui tem espaço para todo mundo. Eu não estou tirando o lugar de ninguém. É pensar pequeno demais."
O ponto de virada, no entanto, veio depois, com a pandemia. Entre 2016 e 2020, a Requinte havia apostado em festas de debutante através do projeto Sweet 15. Mas o isolamento reconfigurou as prioridades das famílias e reduziu a procura por festas de 15 anos. Foi nesse vácuo que Evandra conheceu Moacyr Bezerra do Nascimento Júnior, hoje seu marido e sócio na empresa. "Ele trouxe olhar de empresário para o negócio e fez eu enxergar várias situações, vários erros que eu estava cometendo que no dia a dia eu não via", reconhece. Com a nova sociedade, a Requinte migrou o foco para casamentos. É o segmento que hoje sustenta a maior parte do faturamento da empresa.
A decisão de deixar o CLT, que ela mesma descreve como divisor de águas pessoal, só amadureceu este ano. "Precisava pouco de coragem para eu realmente sair do CLT e me dedicar. Isso aconteceu esse ano. A empresa cresceu muito em menos de um ano", resume. Evandra reflete, assim, um movimento que pesquisas recentes já vinham registrando no país inteiro. Levantamento do instituto Hibou Pesquisas e Insights, de 2025, mostra que 33% dos brasileiros entre 16 e 34 anos preferem abrir um negócio próprio a manter carteira assinada. Ainda assim, apenas 12% da população adulta sustenta, de fato, uma empresa até hoje. Evandra, portanto, integra a pequena parcela que atravessou o risco até o fim.
Passado o salto, a rotina também mudou. Evandra passou a investir em mentorias e em redes de indicação de negócios, como o BNI e a Mulher W. Também ajustou a própria comunicação, com apoio de uma assessoria carioca. O resultado, segundo ela, é uma empresa mais organizada. É também uma cerimonialista mais assertiva diante de decisões que antes evitava. Esse mesmo apetite por crescimento hoje leva a Requinte a expandir para os destination weddings e os elopements que a Revista Paradigma detalha nas outras duas reportagens desta série — prova de que a aposta de Evandra não parou no dia em que ela pediu demissão.
Fonte: entrevista exclusiva concedida ao Grupo Paradigma para Nomes que Honram Pernambuco Ed. 3. Dado sobre empreendedorismo: pesquisa Hibou Pesquisas e Insights (2025), via Forte Tecnologia.

