Um casal do interior de Minas Gerais chegou a Pernambuco esta semana para um casamento diferente. Sem festa, sem salão cheio e sem lista extensa de convidados. Só eles dois, a cerimônia e, no máximo, dez pessoas por perto. Esse formato tem nome: elopement, ou "casamento a dois", como resume a cerimonialista Evandra Martins Bento, fundadora da assessoria pernambucana Requinte. O elopement nasceu como alternativa às restrições da pandemia. Hoje, porém, deixou de ser rodeio para virar estratégia deliberada de quem prefere intimidade à ostentação.

Segundo Evandra, o corte que separa um elopement de um casamento convencional é objetivo: até dez convidados. "Até dez convidados considera elopement", explica. Muitas vezes, a lista se resume ao próprio casal e aos filhos, quando existem. O roteiro também encolhe. Sem festa depois, apenas a cerimônia. O formato reduz custos, reduz decisões e, sobretudo, reduz a pressão social que costuma cercar um casamento tradicional.

O fenômeno não é isolado. Estudos do setor de eventos apontam uma virada para 2026: a ostentação cede espaço a celebrações menores e mais pessoais. O movimento é puxado pela busca por personalização. Também pesa a preferência por fornecedores alinhados a valores do casal, não apenas ao tamanho do orçamento. Dentro do mercado brasileiro de casamentos, que deve movimentar R$ 37 bilhões neste ano, as chamadas micro weddings já chamam atenção. Com até 50 convidados, elas registram ticket médio por pessoa mais alto do que festas tradicionais. Ou seja, menos gente não significa menos faturamento. Significa outro tipo de investimento por parte de quem casa.

A guinada rumo ao elopement acompanha, de resto, a virada mais ampla que a pandemia provocou no setor de casamentos. Reportagens da época já registravam a cerimônia intimista como saída para famílias impedidas de se reunir em massa. O que começou como necessidade, porém, permaneceu como preferência. Isso vale mesmo depois de os aglomerados voltarem a ser liberados. Evandra viveu essa mudança na própria carteira de clientes. Ela migrou o foco da Requinte, antes concentrado em festas de debutante, para casamentos — entre eles, cada vez mais, os elopements.

Vale notar que elopement e destination wedding não são excludentes. Com frequência, aliás, se sobrepõem. O casal de Minas Gerais atendido pela Requinte esta semana vive exatamente esse cruzamento. Viajou para casar fora de casa e, ao mesmo tempo, optou pela cerimônia reduzida. "Depois da pandemia ficou muito em alta. Esses casamentos, só o casal, o casal e os filhos, até dez convidados", resume Evandra sobre o padrão que já enxerga se repetir com frequência crescente.

Para quem presta serviço de cerimonial, o elopement exige outro tipo de entrega. Há menos gente para coordenar. Porém, sobra mais atenção para cada detalhe simbólico, já que não há volume de convidados para diluir eventuais falhas. Assim, o elopement redesenha não só o tamanho do casamento. Redesenha também o padrão de exigência de quem contrata. É uma discussão que a Revista Paradigma já havia começado a explorar. O tema é o avanço do destination wedding no Nordeste, assunto da matéria anterior desta série.

Ainda assim, Evandra não vê o elopement como modismo passageiro. Para ela, o formato reflete uma mudança mais profunda: casais querem controlar a própria narrativa, em vez de seguir um roteiro herdado dos pais. É uma leitura pessoal da cerimonialista, construída em quase duas décadas observando noivos de perto. Os dados do próprio setor, porém, dão respaldo a essa leitura: a tendência nacional já aponta para celebrações mais intimistas.

Na prática, o elopement muda até o calendário da Requinte. Em vez de concentrar tudo em grandes sábados de festa, a empresa reserva dias de semana inteiros para um único casal. A equipe fica reduzida, mas a atenção ao casal cresce. É um modelo de negócio diferente do casamento tradicional — mais enxuto em gente, porém não em cuidado. Para Evandra, é justamente esse cuidado que sustenta a reputação da Requinte no mercado pernambucano. Vale para qualquer tamanho de evento.

Fonte: entrevista exclusiva concedida ao Grupo Paradigma para Nomes que Honram Pernambuco Ed. 3. Dados de mercado: Repórter Maceió e A Gazeta.