O caminho de Cylsse Emanuelle Freire Borba no Martorelli Advogados, um dos grandes escritórios do Recife, começou com um telefonema. Recém-chegada ao mercado, ela ligou, perguntou se havia vaga e pediu o e-mail do RH. Entrou como advogada júnior. Seis anos depois, respondia pela gestão de equipes com 35 pessoas e cerca de 15 mil processos.

A trajetória anterior explica o método. Natural de Pesqueira, no Agreste pernambucano, Borba se formou em Direito em 2016, mas estagiava desde o primeiro período. Passou cinco anos no Urbano Vitalino Advogados, onde foi estagiária, assistente jurídica e advogada. Lá, atendeu bancos, varejo e fintechs. Depois trabalhou com execução. Ali, analisava processos do início ao fim e fazia cálculos jurídicos em busca da saída mais justa para o cliente.

No Martorelli, onde chegou na pandemia, aprendeu que a gestão de equipes no contencioso de volume começa pelo contrato. “A minha atuação nunca foi somente processual, mas de entender as dores do cliente e atuar em cima disso”, afirma. Como ela atuava quase sempre no polo passivo, em defesa de grandes empresas, sua equipe olhava também para antes da sentença. O objetivo era evitar que o cliente sequer virasse réu.

O tamanho do mercado dá a dimensão desse trabalho. Segundo o Conselho Federal da OAB, o país tem mais de 1,5 milhão de advogados regulares. Cerca de 47 mil estão em Pernambuco. Num mercado tão disputado, quem atende grandes empresas precisa de times que mantenham a qualidade em milhares de casos simultâneos. Nesse modelo, um erro repetido em série custa caro. Por isso, a gestão de equipes vira parte do produto entregue ao cliente.

O desafio mais recente de Borba, porém, foi outro. Um escritório a chamou para recuperar um cliente que estava de saída. Lá, ela encontrou uma equipe que descreve como “um pouco disfuncional”. Antes de mexer em rotinas, fez o básico da gestão de equipes: entendeu o ambiente e descobriu o que motivava aquelas pessoas.

Nesse ponto entra a questão geracional. Aos 34 anos, Borba se vê entre dois mundos. “A minha geração era muito mais ativa em termos de trabalho. E essa geração que está vindo, os estagiários, os advogados recém-formados, é mais difícil de fazer entender o papel que ela tem dentro de um time”, observa. A crítica, contudo, vem acompanhada de método. Para ela, a gestão de equipes consiste em fazer todo mundo funcionar de forma colaborativa em torno da mesma questão.

O modelo veio de dentro. Borba cita Kamilla Miranda, sócia-gestora do Martorelli, como a referência que moldou sua forma de conduzir a gestão de equipes. “Ela foi a minha imagem de gestora. Eu virei coordenadora, ela era a minha coordenadora, e eu usei ela, de fato, como inspiração”, conta. A lição foi aprendida de perto, na convivência diária, e hoje ela a repassa a quem lidera.

O traço que Borba considera seu diferencial é a adaptação, somada a uma disposição pouco comum para agir. “Eu acho que tenho essa habilidade de fazer acontecer. Eu vejo pouca gente correndo atrás, e eu não: eu simplesmente vou”, diz. A frase ajuda a entender a mudança mais recente. Hoje, ela trocou o contencioso de volume pela advocacia estratégica, em que cria teses e novos modelos de defesa.

Há ainda um ingrediente menos óbvio. Borba é autora de dois romances publicados e afirma que a ficção a tornou melhor advogada. “Nos livros, eu tive que imaginar cenários. Trago isso para a minha vida profissional, porque uso essa criatividade dentro dos casos. Tenho que estar sempre um pouco além, imaginar cenários onde eu possa trazer a melhor decisão para o meu cliente”, explica.

O próximo passo junta as duas pontas. Depois do mestrado sobre inteligência artificial e direitos fundamentais, Borba quer dar aulas. A pesquisa ocupa as outras matérias desta série da Revista Paradigma. “Eu trago essa questão de gestão, de lidar com pessoas, e quero trazer isso em forma de ensinar”, diz. Para quem está começando, a trajetória dela deixa um recado prático. Dá para chegar longe partindo de um e-mail para o RH. Borba está entre as homenageadas da terceira edição de Nomes que Honram Pernambuco, com lançamento em 30 de novembro.

Entrevista exclusiva concedida ao Grupo Paradigma para a 3ª edição de Nomes que Honram Pernambuco. Dados verificados em: Conselho Federal da OAB – Quadro da advocacia