Em Brasília, em São Paulo e no Rio de Janeiro, grandes empresas mantêm equipes inteiras dedicadas a uma tarefa delicada. Elas conversam com o governo antes que o governo decida. Boa parte do empresariado pernambucano, no entanto, ainda resolve isso no improviso. A atividade tem nome técnico: relações governamentais. O recifense José Correia de Araújo Neto, consultor da área, quer que o setor privado do estado descubra que esse profissional existe.

Ele oferece uma definição direta. "A atuação desse profissional é fazer o link entre o poder público e o privado", resume Correia Neto, em entrevista à Revista Paradigma. Bacharel em Direito, ele é pós-graduado em diplomacia e negócios internacionais. Na prática, relações governamentais significam acompanhar o que se discute no Executivo e no Legislativo. Significam também traduzir esse movimento para a realidade de uma empresa e, quando cabe, levar ao poder público dados e sugestões técnicas. Por isso, ele descreve o trabalho como uma parceria em que, nas palavras dele, todos ganham.

A profissão chegou ao Brasil pela porta das multinacionais. Segundo Correia Neto, empresas americanas, britânicas e europeias já tinham áreas de relações governamentais nas matrizes. Assim, trouxeram o modelo quando se instalaram no país. Ele próprio só entendeu o tamanho do campo quando foi a São Paulo e se especializou no tema no Insper. "Foi quando eu descobri o que era", conta. Antes disso, já circulava pelo serviço público havia anos, mas ainda sem um nome para o que fazia de melhor.

Desde então, o setor ganhou corpo institucional. O Instituto de Relações Governamentais (IRELGOV) nasceu em 2014 como o primeiro instituto do gênero no país, como um think tank sobre as relações governamentais. A entidade trabalha para elevar o profissionalismo e os padrões éticos da atividade. Legitimidade, legalidade e transparência aparecem entre os princípios que defende. Além disso, a regulamentação do lobby segue em debate em Brasília. O PL 2914/2022, aprovado pela Câmara em 2022, continua em tramitação no Senado. Ademais, a profissão já é reconhecida pelo Ministério do Trabalho, através da Classificação Brasileira de Ocupações.

O contraste com Pernambuco é o ponto de partida do consultor. "Rio, São Paulo, Brasília, isso já tá bastante difundido", observa. "Até porque o centro do poder do nosso país realmente é Brasília." Aqui, na leitura dele, há empresas de porte, há uma máquina pública complexa e há um mercado à espera. Falta, porém, a cultura de contratar alguém de relações governamentais para fazer a ponte entre os dois lados.

A ausência dessa ponte costuma aparecer em forma de susto. Uma mudança de alíquota, uma nova exigência ambiental ou uma regra de licitação chega à empresa como manchete de jornal. Com acompanhamento, poderia ter chegado meses antes, como informação de bastidor. Esse é o argumento que Correia Neto mais repete. A Revista Paradigma o aprofunda em outra matéria desta série, sobre o aumento do ICMS dos combustíveis.

Ele conhece bem o outro lado do balcão. Correia Neto é filho de um bancário do antigo Bandepe e neto de servidores federais. Começou como estagiário na Justiça Federal e passou pelo escritório do Itamaraty no Nordeste. Em seguida, trabalhou na Procuradoria de Olinda, no grupo JCPM e em órgãos estaduais e municipais, quase sempre como assessor. Também coordenou, por dois anos e meio, o tribunal de disciplina da OAB de Pernambuco. Essa travessia entre o público e o privado é, no fim das contas, a matéria-prima das relações governamentais.

Saber ler uma lei, um decreto ou um convênio permite antecipar o que vem pela frente. E antecipar é justamente o que o cliente compra.

Há, ainda, uma palavra que ele faz questão de sublinhar. O trabalho, define, "é a defesa dos interesses legítimos" da atividade privada junto ao poder público. O adjetivo "legítimos" não está ali por acaso. É ele que separa as relações governamentais da caricatura que o termo lobby ainda carrega no Brasil. Do mesmo modo, é ele que explica por que o setor tem pressa em ver as regras aprovadas.

Correia Neto reconhece que já existem profissionais de relações governamentais atuando em Pernambuco, contudo, muitos de forma lateral as suas profissões, sem ser a especialidade. Ainda assim, acredita que o campo segue pouco visível. Por isso, o legado que deseja deixar tem endereço certo: ser aquele que "inicia essa atividade no nosso estado, na nossa cidade". O consultor integra a terceira edição da revista Nomes que Honram Pernambuco, do Grupo Paradigma. Se a meta dele vingar, a próxima surpresa tributária encontrará mais empresas pernambucanas preparadas para ela.

Entrevista exclusiva concedida ao Grupo Paradigma para a terceira edição da revista Nomes que Honram Pernambuco. Fontes de verificação: IRELGOV · PL 2914/2022 no Senado Federal.