Agosto de 2026 entrou para a história do Porto de Suape. Em um único mês, o complexo movimentou 2,73 milhões de toneladas, o maior volume já registrado. De janeiro a agosto, a alta chegou a 22,8% sobre o mesmo período de 2025. Os números animam o setor, mas quem opera no dia a dia enxerga também o outro lado da conta. Ramón Mas Gomez Júnior, sócio de duas tradings e advogado criminalista, é um deles.

"Nós temos hoje um porto que vem crescendo, mas ainda tem alguns gargalos", diz Ramón Mas, em entrevista à Revista Paradigma. Ele lista problemas logísticos, problemas estruturais e carência de pessoal nas áreas de fiscalização. Na avaliação dele, esse último ponto é o que mais atrasa os desembaraços aduaneiros.

Os dados oficiais confirmam o crescimento do Porto de Suape.

Segundo o Movimento Econômico, Suape somou 18,8 milhões de toneladas nos oito primeiros meses de 2026. Os granéis líquidos responderam por 67,6% do total. Os contêineres chegaram a 442 mil TEUs, e as atracações cresceram 9,6%. "Ultrapassar 2,7 milhões de toneladas em um único mês é um resultado importante para o porto", afirmou o presidente de Suape, Armando Monteiro Bisneto.

O retrato de 2025, no entanto, era mais modesto. Dados da Antaq publicados pelo Movimento Econômico mostram que o porto fechou o ano com 24,3 milhões de toneladas, queda de 2,37% sobre 2024. Ainda assim, a carga em contêineres subiu 7,54%, para 7,6 milhões de toneladas. Em outras palavras, o tipo de carga que mais depende de fiscalização aduaneira é justamente o que mais cresce.

É nesse ponto que a observação de Ramón Mas ganha peso. Cada contêiner de importação que chega ao Porto de Suape precisa passar pelo desembaraço, e o desembaraço depende de auditores e analistas da Receita Federal. Quando faltam servidores, a carga espera. Quando a carga espera, o importador paga armazenagem, perde prazo e repassa custo.

A fragilidade ficou visível em escala nacional no fim de 2024. Em novembro daquele ano, segundo a Datamar News, os auditores fiscais da Receita entraram em greve por tempo indeterminado. A paralisação travou a liberação de cargas em portos e aeroportos de todo o país. Só escaparam itens prioritários, como alimentos, medicamentos e perecíveis.

Ramón Mas faz questão de separar as coisas. Para ele, o gargalo é "um problema do serviço público", e não do porto em si. Além disso, avalia que são questões a serem enfrentadas "juntamente com os empresários". O olhar vem de quem passou 30 anos na Polícia Federal antes de se aposentar, em 2017, e conhece a máquina pública por dentro.

O outro gargalo, segundo ele, é de mentalidade. Pernambuco, na leitura do empresário, ainda é um estado "pouco explorado e que tem muitas riquezas a serem exploradas". O problema aparece sobretudo na exportação. "É um segmento ainda pouco explorado para alguns empresários que buscam vender seus produtos no mercado exterior e não sabem ainda como buscar clientes", afirma.

O potencial existe. Em 2025, o Nordeste exportou US$ 24,8 bilhões, o maior volume em três anos, segundo dados da Sudene citados pelo Movimento Econômico. Ao mesmo tempo, o acordo entre Mercosul e União Europeia entrou em vigor em maio de 2026. Ele zerou tarifas para mais de 80% dos produtos brasileiros. Suape aparece como uma das rotas logísticas relevantes para esse fluxo.

As tradings de Ramón Mas, em Maceió e no Recife, trabalham justamente nessa ponte. "Esse trabalho de busca de clientes nós fazemos", diz ele. Além da operação, as empresas oferecem amparo jurídico ao cliente, o diferencial que ele mais destaca.

O recorde de agosto mostra que o Porto de Suape tem estrutura, carga e demanda. Falta, na leitura de quem opera ali, completar a equação com gente na fiscalização e empresários dispostos a olhar para fora. Sem essas duas peças, o crescimento continua, porém mais devagar do que poderia.

Nesta série, a Revista Paradigma também mostra como o acordo com a União Europeia pode levar o Nordeste à Espanha. Outros perfis de protagonistas pernambucanos estão no portal do Grupo Paradigma.

Entrevista exclusiva concedida à Revista Paradigma para a revista Nomes que Honram Pernambuco, Ed. 3. Dados de verificação: Movimento Econômico — Suape bate recorde mensal; Movimento Econômico — Movimentação portuária 2025 (Antaq); Datamar News — Greve dos auditores.