Depois de 26 anos de negociação, o acordo Mercosul-UE começou a valer de forma provisória em 1º de maio de 2026. A mudança abriu uma porta que o empresário Ramón Mas Gomez Júnior já planejava atravessar. Advogado criminalista e sócio de tradings em Maceió e no Recife, ele é filho de pai espanhol. Nos próximos anos, quer instalar uma operação de comércio exterior na Espanha.

"Eu tenho interesse em abrir uma filial da nossa trading na Espanha, onde tenho cidadania", diz Ramón Mas, em entrevista à Revista Paradigma. O objetivo, segundo ele, é entrelaçar os interesses da Comunidade Europeia com o comércio exterior brasileiro, "juntamente com a riqueza de produtos que nós temos aqui no Brasil".

O acordo Mercosul-UE favorece a ideia. Os números ajudam a explicar por quê.

Segundo estimativas da Confederação Nacional da Indústria citadas pelo Movimento Econômico, mais de 80% dos produtos brasileiros vendidos à Europa ganharam tarifa zero. São mais de 5 mil itens. Antes do acordo, as frutas brasileiras pagavam entre 4% e 14% para entrar no mercado europeu.

Para Pernambuco, o caso mais direto é o da uva. Pelo cronograma do acordo Mercosul-UE, a fruta teve a tarifa zerada de imediato. Isso interessa de perto ao Vale do São Francisco, em Petrolina. Já o abacate terá a desgravação concluída em quatro anos. Limão, lima, melão e melancia, por sua vez, levarão sete anos para chegar à tarifa zero.

O apetite europeu já existe. Em 2025, segundo o MDIC, as frutas brasileiras vendidas à Europa somaram US$ 967 milhões e 949 mil toneladas. O valor cresceu 12,8% sobre 2024. A Europa recebeu 79% das frutas que o Brasil exportou. Além disso, a ApexBrasil projeta crescimento de 40% no faturamento da fruticultura até 2029.

O Nordeste chega a esse mercado com uma base sólida. A região exportou US$ 24,8 bilhões em 2025, o maior volume em três anos, segundo a Sudene. Os Países Baixos foram o principal destino europeu, com US$ 1,19 bilhão.

É nesse desenho que a Espanha entra no plano de Ramón Mas. Uma filial dentro da União Europeia permite à trading falar a língua do comprador, acompanhar a chegada da carga e conhecer as exigências locais de perto. Por isso, a cidadania espanhola, herdada do pai, tem valor prático para o negócio.

A trajetória do empresário mostra que ele não teme recomeços. Ramón Mas nasceu em Salvador, mudou-se para o Recife com um ano de idade e fez a vida em Pernambuco. Atuou por 30 anos na Polícia Federal, inclusive como piloto de helicóptero em operações na Amazônia. Aposentou-se em 2017, aos 50 anos, e começou do zero na advocacia criminal e, depois, no comércio exterior.

Ele mesmo define o traço que o move. "Eu sou um cara perseverante, que enfrenta os desafios e não se abala com os tropeços", diz. "Procuro sempre me reinventar."

O acordo Mercosul-UE, no entanto, ainda tem pontas soltas. Pescados como camarão, peixes e lagosta seguem fora do mercado europeu por uma restrição sanitária em vigor desde 2018. Além disso, o governo brasileiro ainda precisa regulamentar a divisão das cotas de exportação entre Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Quem pretende exportar precisa acompanhar essas definições antes de fechar contratos.

Há também uma lição prática para o empresário local. Segundo Ramón Mas, muitos produtores pernambucanos querem vender lá fora, mas não sabem como encontrar compradores. A tarifa zero resolve o preço, porém não resolve a apresentação. Sem alguém que faça essa ponte comercial, o acordo Mercosul-UE fica no papel para boa parte dos pequenos e médios exportadores.

O plano espanhol ainda não tem data. Mesmo assim, ele dialoga com uma mudança concreta: a uva do sertão pernambucano já pode chegar a Madri sem pagar pedágio tarifário. Falta, agora, quem leve.

Nesta série, a Revista Paradigma também mostra os gargalos do Porto de Suape, uma das rotas desse fluxo. Outros perfis de protagonistas pernambucanos estão no portal do Grupo Paradigma.

Entrevista exclusiva concedida à Revista Paradigma para a revista Nomes que Honram Pernambuco, Ed. 3. Dados de verificação: Movimento Econômico — Acordo Mercosul-UE abre mercado para exportadores do NE; Money Times — Acordo entra em vigor após 26 anos; JB — Vigência provisória confirmada.