Seis em cada dez empresas abertas no Brasil fecham as portas antes de completar cinco anos, segundo o IBGE. Para Mychel Paes Barreto, presidente do Conselho Regional de Administração de Pernambuco (CRA-PE), a causa costuma estar no começo. Muitos negócios nascem sem planejamento estratégico. E só descobrem a falta dele quando o caixa aperta.
Os números do instituto desenham uma curva que se inclina depressa. Das 597,2 mil empresas criadas em 2012, 78,9% sobreviveram ao primeiro ano. Cinco anos depois, só 39,8% seguiam ativas, de acordo com a pesquisa Demografia das Empresas. Além disso, as sobreviventes tendiam a ter ao menos um empregado assalariado. Já as que fecharam eram, em sua maioria, tocadas apenas por donos e sócios. Para o CRA-PE, a diferença passa por estrutura de gestão e por planejamento estratégico.
Barreto conhece o problema pelos dois lados do balcão. Ele é administrador, professor universitário e mestrando em administração. Também herdou, ainda jovem, a agência de publicidade do pai, que morreu de repente. Sem tempo para se preparar, precisou aprender a gestão, como ele mesmo diz, “no tranco”.
O exemplo que ele escolhe vem de casa. Caruaru, onde mora, integra o Polo de Confecções do Agreste, ao lado de Santa Cruz do Capibaribe e Toritama. Segundo a revista Algomais, o polo movimentou R$ 18,6 bilhões em negócios em 2025. Ali, saber costurar é o ponto de partida de muitas fábricas. No entanto, a técnica sozinha não segura uma empresa. “Você tem aquela parte técnica da costura”, diz Barreto. “Mas você tem que entender quem são seus fornecedores, como comprar melhor, quem são seus clientes.”
Na leitura dele, a costura é só o primeiro elo de uma corrente. Depois vêm a compra de insumos, o estoque, o preço, o canal de venda e o crédito. Quem domina um elo e ignora os outros administra no escuro. Por isso, Barreto defende que o empreendedor sem formação em gestão busque ajuda antes de investir. Pode ser um administrador contratado ou uma consultoria. O objetivo, diz ele, é fazer o planejamento estratégico “para ele não se perder no meio do negócio”.
O ponto mais agudo do argumento está no momento em que o plano é posto à prova. Enquanto as vendas sobem, planejar parece dispensável. É justamente aí que o risco cresce sem fazer barulho. “É muito bom administrar um negócio quando ele tá bem”, observa Barreto. “Mas quando as coisas começam a ficar apertadas, aí entra mais ainda a importância de um profissional de administração para dar um norte.” Em outras palavras, o planejamento estratégico feito na bonança é o que permite atravessar a escassez.
Planejamento estratégico, nesse sentido, tem pouco de documento de gaveta. Envolve entender o mercado antes de entrar nele e mapear fornecedores e clientes. Também inclui projetar o caixa e decidir antes o que fazer quando a receita cair. Além disso, o plano precisa mudar quando o cenário muda. O próprio polo do Agreste vive isso agora. Segundo a Algomais, as roupas importadas passaram de 12,9% para 22,2% do consumo nacional entre 2021 e 2025.
A oferta de gente preparada para esse trabalho também cresceu. Barreto chama atenção para a expansão dos cursos tecnólogos ligados à administração. É o caso de marketing, logística, recursos humanos e gestão comercial. Segundo ele, esses profissionais aprendem na faculdade a “fazer mais com menos”. Esse é exatamente o tipo de competência de que um pequeno negócio precisa para tirar o planejamento estratégico do papel quando a margem encolhe.
O raciocínio vale além da moda. Pernambuco reúne economias de lógica muito diferente, da fruticultura de Petrolina ao gesso do Araripe. Há ainda o estaleiro de Ipojuca e o turismo do litoral. Em todas elas, observa Barreto, existem empreendedores com domínio técnico e pouca estrutura de gestão. Para o CRA-PE, a ausência de planejamento estratégico ajuda a explicar o tamanho da estatística do IBGE.
O conselho tem levado essa discussão a faculdades e eventos fora da capital. A Revista Paradigma aprofunda esse movimento em outra matéria desta série. Assim, a recomendação de Barreto ao empreendedor acaba sendo bastante prática. Antes de abrir a porta, vale saber quem vende para você e quem compra de você. Vale saber também o que fazer no mês em que nenhum dos dois aparecer. Esse é o planejamento estratégico que separa a empresa que chega ao quinto ano da que fica pelo caminho.
Entrevista exclusiva concedida ao Grupo Paradigma para a revista Nomes que Honram Pernambuco (Ed. 3). Dados e verificação: IBGE — Demografia das Empresas · Algomais — Polo de Confecções do Agreste · CRA-PE. Mais histórias em grupoparadigmape.com.br.

