Quando Mychel Paes Barreto fala para a Geração Z, ele começa por um dado desconfortável. O presidente do Conselho Regional de Administração de Pernambuco (CRA-PE) cita estudos segundo os quais o QI dos mais jovens parou de subir. Seria a primeira vez que isso acontece desde que se comparam gerações. A partir daí, a palestra que ele leva a faculdades vira um recado sobre estudo e carreira.

Barreto fala do lugar de quem ensina. Ele é professor universitário há cerca de oito anos. Antes, deu aulas em escola técnica e no Projovem Urbano, programa federal de qualificação de jovens, por volta de 2014. “A educação é um vetor muito importante para o avanço do nosso país”, afirma. Por isso, diz, gosta da área. Ela permite formar novos profissionais “numa época tão complicada”.

A tese ganhou repercussão recente. O neurocientista Jared Cooney Horvath falou sobre o tema à Comissão de Comércio, Ciência e Transportes do Senado dos Estados Unidos. Segundo a Revista Planeta, ele afirmou que a Geração Z tem desempenho cognitivo inferior ao da geração anterior. Horvath associa a queda ao uso intensivo de telas, inclusive dentro da escola.

O pano de fundo científico é mais antigo. Ao longo do século 20, as notas em testes de QI subiram em vários países. O fenômeno ganhou o nome de efeito Flynn. Em 2018, porém, os economistas noruegueses Bernt Bratsberg e Ole Rogeberg analisaram cerca de 730 mil testes aplicados a recrutas. O estudo, publicado na revista PNAS, mostrou que a curva se inverteu para os nascidos a partir de meados dos anos 1970. Como a queda aparecia até entre irmãos, os autores apontaram causas ambientais.

A leitura sobre a Geração Z, no entanto, está longe do consenso. Críticos lembram que testes de QI não medem todas as formas de inteligência. Além disso, os jovens de hoje superam os pais em fluência digital e rapidez para navegar em informação, como resumiu o Gizmodo Brasil. Em coluna no IT Forum, a ideia de uma Geração Z menos inteligente foi tratada como preconceito. Ou seja, o tamanho da queda e o que ela significa seguem em disputa.

Barreto não ignora o outro lado. Para ele, internet, redes sociais e inteligência artificial têm efeito duplo sobre a Geração Z. “Ajuda por um lado, mas prejudica por outro também”, resume. A preocupação dele está na compreensão. Respostas prontas, avalia, vêm enfraquecendo o hábito de estudar a fundo.

É nesse ponto que a palestra deixa a neurociência e entra no mercado de trabalho. Barreto pede aos estudantes que se esforcem mais e busquem conhecimento. Acima de tudo, pede que não parem na graduação. O conselho vem de quem pratica o que recomenda. Aos 42 anos, ele cursa mestrado em administração enquanto preside o CRA-PE e dá aulas.

O argumento ganha peso com dados do próprio conselho. Segundo Barreto, o CRA-PE pesquisou os administradores do estado. Entre os desempregados e os mal remunerados, havia um traço comum: a falta de especialização. Em contrapartida, os que estavam bem na profissão tinham MBA, mestrado ou doutorado. A Revista Paradigma detalha esse levantamento em outra matéria desta série.

Na outra ponta, o mercado também mudou. Barreto observa que a chegada da tecnologia ao trabalho tornou mais difícil a vida de quem acaba de se formar. Por isso, o CRA-PE passou a oferecer cursos em áreas pouco conhecidas pelos administradores. Perícia, mediação e arbitragem estão entre elas. Desse modo, a palestra para a Geração Z termina em algo concreto: uma lista de caminhos para quem está perto do diploma.

Se a Geração Z é ou não menos inteligente que os pais, a ciência ainda vai discutir por anos. O pedido de Barreto aos estudantes é bem menos polêmico. Ele cabe numa frase curta: não parar de estudar no dia da formatura.

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Entrevista exclusiva concedida ao Grupo Paradigma para a revista Nomes que Honram Pernambuco (Ed. 3). Dados e verificação: Revista Planeta — depoimento de Jared Cooney Horvath · Bratsberg & Rogeberg, PNAS (2018) · Gizmodo Brasil · IT Forum. Mais histórias em grupoparadigmape.com.br.