Uma biópsia feita numa clínica de Arcoverde, no Sertão, pode virar imagem de altíssima resolução. Depois, pode chegar a um especialista em outra cidade, outro estado, outro país. Essa é a promessa da patologia digital. Na avaliação da médica anatomopatologista Geórgia Karla de Almeida Cidrim, sócia do Núcleo de Patologia GK Cidrim, no Recife, ela vai dominar a rotina dos laboratórios nos próximos cinco anos.

“A patologia digital já é uma realidade hoje”, afirma Karla. “As lâminas podem ser escaneadas, e disso se gera uma imagem.” Segundo ela, essa imagem pode ser discutida e vista por patologistas no mundo todo. A frase soa técnica, mas descreve uma mudança. Durante mais de um século, o diagnóstico dependeu do encontro entre o vidro, o microscópio e o olho treinado. Com a patologia digital, a imagem viaja. O olho, portanto, pode estar em qualquer lugar.

Essa mobilidade chega quando o Brasil mais precisa dela. Segundo a Demografia Médica no Brasil 2025, o país tem 4.424 patologistas. Isso equivale a 2,08 para cada 100 mil habitantes, como destacou a Sociedade Brasileira de Patologia. A referência da Organização Mundial da Saúde fica entre 5 e 6. Além disso, a distribuição é desigual. Só São Paulo reúne 1.468 desses especialistas, enquanto os sete estados do Norte somam 177.

Do outro lado da balança, a demanda cresce. O INCA estima 781 mil casos novos de câncer por ano no Brasil entre 2026 e 2028. Na imensa maioria dos casos, a confirmação do tumor passa pelo exame do tecido. Em outras palavras, passa pela mesa de um patologista. Pouca gente para muita lâmina: é essa a equação que a patologia digital ajuda a reequilibrar.

O caminho regulatório também já existe. Em 2019, o Conselho Federal de Medicina publicou a Resolução CFM nº 2.264, que disciplina a telepatologia. A norma exige médico responsável nas duas pontas da transmissão. Também cobra registro de especialista e assinatura digital com certificação ICP-Brasil. Assim, a imagem pode atravessar o estado. A responsabilidade pelo laudo, no entanto, continua com nome, sobrenome e CRM.

Para quem administra um laboratório, a patologia digital muda ainda a lógica de contratação. Daniel Marsol é administrador com pós-graduação em gestão de saúde e sócio de Karla no Núcleo. “O patologista vai ter essa liberdade de local”, diz. “Se quiser prestar serviço para um laboratório em outra cidade, ele vai poder.” Por outro lado, segundo Marsol, o laboratório ganha acesso a nomes renomados para auxiliar nos laudos dos pacientes.

Hoje, o Núcleo atende mais de 20 cidades pernambucanas a partir do Recife e de Caruaru. A equipe tem cinco patologistas. Entre elas está uma antiga professora de Karla na faculdade, que também foi sua mentora. Ou seja, o laboratório já reúne gerações diferentes da especialidade sob o mesmo teto. Com a patologia digital, esse teto tende a se esticar além das paredes.

No interior, o efeito promete ser ainda maior. Segundo os sócios, a meta é levar ao Sertão o mesmo padrão de diagnóstico dos grandes centros. Para isso, o Núcleo investe de forma contínua em equipamentos e novas tecnologias. Dessa forma, a distância entre uma biópsia no semiárido e uma segunda opinião especializada deixa de ser contada em quilômetros. Passa a ser contada em cliques.

Ainda assim, a patologia digital não resolve tudo sozinha. Escanear lâminas exige equipamentos caros, conexão estável e armazenamento seguro. A própria resolução do CFM, por exemplo, fixa prazos de guarda para as imagens. Além disso, nenhum arquivo substitui a conversa entre o patologista e o médico que trata o paciente. Essa proximidade é o tema de outra matéria desta série da Revista Paradigma.

Enquanto isso, a lâmina continua do mesmo tamanho, com alguns centímetros de vidro. O que muda é o alcance dela. O Brasil tem menos da metade dos patologistas que a OMS recomenda. Por isso, cada quilômetro vencido pela imagem representa um paciente que espera menos pelo diagnóstico. Histórias de profissionais pernambucanos que antecipam essas mudanças fazem parte das publicações do Grupo Paradigma.

Entrevista exclusiva concedida por Karla de Almeida Cidrim e Daniel Marsol ao Grupo Paradigma para a edição 3 da Nomes que Honram Pernambuco.