Quase ninguém conhece o rosto de quem assina o próprio laudo patológico. O patologista trabalha longe do consultório. Recebe um fragmento de tecido identificado por um número e devolve um diagnóstico capaz de mudar uma vida. Para Geórgia Karla de Almeida Cidrim, médica anatomopatologista e sócia do Núcleo de Patologia GK Cidrim, no Recife, essa distância exige cuidado redobrado.
“A gente sabe que aquele pedacinho de tecido é um paciente”, diz ela. “É uma pessoa que está ansiosa, é uma vida que pode ter uma mudança de conduta mediante esse laudo.” A frase resume a lógica da especialidade. Afinal, é a partir do laudo patológico que o médico decide se opera, se indica quimioterapia ou se apenas acompanha.
Daniel Marsol, administrador com pós-graduação em gestão de saúde e sócio de Karla, vê a questão pelo lado do serviço. “O nosso apoio diagnóstico conduz todo o tratamento do paciente”, explica. Segundo ele, é pelo laudo que o médico segue por uma via ou por outra. Por isso, a relação entre quem emite o laudo patológico e quem trata não pode ser impessoal.
Para Marsol, o problema aparece quando algo sai do roteiro. Muitos serviços do Nordeste enviam amostras para grandes laboratórios do eixo Rio–São Paulo. “Na hora em que o negócio está indo bem, está todo mundo indo bem”, afirma. “Mas quando tem um problema, o médico não sabe nem com quem vai falar.”
Para evitar esse vazio, o Núcleo adotou uma regra pouco comum: visitar pessoalmente os parceiros. De acordo com os sócios, quase 100% das mais de 200 clínicas, hospitais e laboratórios atendidos já receberam a equipe. A conversa inclui o diretor da unidade e o médico responsável técnico. Dessa forma, diante de qualquer dúvida sobre um laudo patológico, cada lado sabe a quem recorrer.
O efeito dessas visitas aparece em cenas simples. Marsol lembra de uma viagem a Arcoverde, no Sertão. Lá, um médico recebeu a equipe com surpresa: “Rapaz, a patologista aqui! Que coisa boa conhecer.” E completou: “É tão bom saber quem dá os laudos dos meus pacientes.” Arcoverde fica a cerca de 250 quilômetros do Recife. Conhecer quem assina o laudo encurta uma distância que a estrada não encurta.
Essa proximidade também explica a virada recente do laboratório. Durante alguns anos, o Núcleo apenas lia lâminas, sem processar o material. Nesse período, segundo os sócios, médicos que conheciam a equipe passaram a pedir a volta do serviço completo. A queixa se repetia. Para tirar uma dúvida sobre um laudo patológico, precisavam ligar para São Paulo ou para o Rio.
Além da presença, o modelo depende de logística. O laboratório mantém transporte próprio e diário, que liga mais de 20 cidades à sede no Recife. Uma unidade em Caruaru, no Agreste, dá suporte a essa rota. Assim, uma clínica do Sertão acessa o mesmo tipo de exame dos grandes centros. Quem analisa o material é uma equipe de cinco patologistas.
Para Karla, o cuidado vai até a redação do documento. “A gente tem o laudo do paciente como um presente”, diz. “Quando você vai entregar um presente a uma pessoa, você quer entregar o melhor que tem.” Na prática, isso significa um laudo patológico claro e bem estruturado. Parece detalhe de redação. No entanto, um laudo ambíguo atrasa decisões, enquanto um laudo claro permite agir.
A escala do desafio justifica o zelo. O INCA estima 781 mil casos novos de câncer por ano no Brasil até 2028. Praticamente toda suspeita de tumor passa, em algum momento, por uma lâmina. Ao mesmo tempo, o país tem apenas 2,08 patologistas para cada 100 mil habitantes. Cada laudo patológico, portanto, disputa a atenção de poucos especialistas. Por trás de cada número, porém, existe alguém esperando um telefonema.
“Às vezes a gente vê as coisas crescendo muito, e todo mundo quer volume”, diz Karla. “Mas a gente não pode esquecer que está tratando um paciente, de pessoa para pessoa.” O lembrete vale para um setor que persegue escala. Com a patologia digital, esse setor ganha ferramentas para crescer ainda mais rápido, tema de outra matéria desta série da Revista Paradigma.
Entrevista exclusiva concedida por Karla de Almeida Cidrim e Daniel Marsol ao Grupo Paradigma para a edição 3 da Nomes que Honram Pernambuco.

