Claudio Kitner arrisca uma data: cinco anos. É o prazo que ele dá para o juiz do futuro parecer bem diferente do juiz de hoje. Kitner é juiz federal na Turma Recursal da Justiça Federal em Pernambuco. Ali, a maior parte da pauta é de direito previdenciário. Ele usa inteligência artificial todos os dias no próprio ofício. Da pesquisa de jurisprudência à organização das aulas que dá em paralelo à magistratura.
Segundo ele, porém, o que muda não é o ato de julgar. É, isto sim, tudo o que cerca esse ato. "Hoje, quando recebo um processo, uma boa parte do meu tempo e do tempo da assessoria vai para tarefas que não exigem propriamente julgamento", explica. Por exemplo: ler centenas de páginas para separar o que interessa. Garimpar precedentes. Conferir se a tese já foi enfrentada. Padronizar o que é padronizável. Nenhuma dessas tarefas, portanto, pede de fato um juiz.
Daqui a cinco anos, Kitner imagina outra cena. "Chego ao processo e a máquina já me entrega o caso mastigado, os pontos controvertidos isolados, os precedentes favoráveis e contrários lado a lado, as inconsistências apontadas", projeta. "O que hoje me toma horas passará a tomar minutos." A promessa do juiz do futuro, à primeira vista, é apenas de velocidade. No entanto, o ponto central, para ele, está em outro lugar.
"O ponto é o que faço com o tempo que sobra", afirma Kitner. Esse tempo, segundo ele, não desaparece. Se desloca. Vai para o que só o juiz do futuro pode fazer: "compreender o conflito humano por trás dos autos e decidir com fundamento." A pesquisa jurídica é hoje uma habilidade valorizada. Ela tende, porém, a perder peso relativo. "Deixa de bastar o bom pesquisador, porque a pesquisa vira quase uma commodity", diz. Em seu lugar, ganha espaço quem sabe "interrogar a ferramenta, desconfiar dela e conferir o que ela entrega, porque a IA erra com aparência de acerto."
Além disso, essa mudança de perfil no juiz do futuro já aparece em pesquisas nacionais. Segundo o Conselho Nacional de Justiça, a inteligência artificial generativa já é usada em mais de 45% dos tribunais brasileiros. O hábito de Kitner, portanto, antecipa uma tendência que já avança pelo país inteiro — não é um caso isolado.
Ainda assim, Kitner recusa o rótulo de pioneiro. "Precursor talvez seja palavra grande", pondera. "Diria que fui um dos que se dispuseram cedo a testar, errar e ajustar, em vez de esperar a tecnologia amadurecer sozinha." A modéstia não esconde uma visão exigente. Ele sabe bem o que está em jogo. Para ele, a relação entre juiz e partes tende a melhorar com a IA bem aplicada, não a piorar. "Um Judiciário mais rápido no trivial é um Judiciário com mais tempo para ouvir de verdade os casos difíceis, aqueles em que a decisão pesa na vida de alguém", resume.
Ainda assim, existe um risco real — e Kitner não o esconde. "O risco, que existe e é real, é o inverso: um juiz que se acomoda e apenas assina o que a máquina propôs", alerta. Além disso, a diferença entre os dois caminhos não depende da tecnologia disponível daqui a cinco anos. Depende de uma escolha que os próprios magistrados fazem agora, processo por processo. "A figura do juiz em cinco anos vai depender de qual dos dois caminhos escolhermos agora", conclui.
O Grupo Paradigma segue de perto essa transformação. O tema volta com frequência nas publicações sobre o cenário jurídico de Pernambuco. Nesse debate, a visão de Kitner sugere algo específico: o juiz do futuro não será definido pela tecnologia que usa. Será definido, sim, pelo que decide fazer com o tempo que ela devolve.
Entrevista exclusiva concedida ao Grupo Paradigma para a edição Nomes que Honram Pernambuco. Dados externos: CNJ.

