Aos 21 anos, Matheus Emannuel Luiz da Silva abriu mão do salário, da convivência com a família e da namorada. Em troca, passou dois anos como missionário voluntário em tempo integral. Hoje coordenador operacional do Cabanga Iate Clube de Pernambuco, ele considera essa decisão o divisor de águas da carreira. A história dele ajuda a responder uma pergunta que intriga muitas empresas. De onde vem a liderança jovem que funciona antes dos 30?

A trajetória começou cedo, e com um copo de suco. Aos oito ou nove anos, ele tinha vergonha de pedir dinheiro ao pai para pequenas compras. Por isso, montou uma mesa no condomínio onde morava e passou a vender suco de limão, inspirado num filme. A família comprou primeiro; depois, vieram os vizinhos. Entre os 16 e os 18 anos, já acompanhava o pai, Luiz José da Silva, nas vendas de imóveis e nas idas ao cartório.

Em seguida vieram os bastidores do Legislativo. Emannuel foi assessor parlamentar na Câmara Municipal do Recife e passou pela Assembleia Legislativa de Pernambuco. Depois, coordenou a área digital de uma campanha para deputado federal. Foi então que chegou o convite da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, cujos fiéis são conhecidos como mórmons.

A decisão não foi exatamente fácil. A namorada, Camilla Brito Rosas Ribeiro, na época interna de medicina, hoje é sua noiva. Naquele momento, porém, quase todos à volta apostavam que o namoro não resistiria à distância. "Todo mundo falava: tu vai abandonar ela, ela não vai te esperar", lembra. Ela esperou, e ele também.

O que ele encontrou na missão foi um curso intensivo de gente. Emannuel conviveu com pessoas de um poder aquisitivo que nunca imaginara frequentar. No extremo oposto, sentou à mesa com quem já havia tirado vidas e estava disposto a mudar. Também ouviu casais em crise e pessoas que viam o trabalho, as finanças e a família desabarem ao mesmo tempo. "Como missionário, eu não tinha medo de estar em nenhum ambiente, porque eu estava ali por um propósito", conta.

O efeito, na leitura dele, foi uma maturidade acelerada. "Parece que eu tenho uns 50 anos desses dois anos que eu vivi", resume. A frase soa como exagero, mas descreve algo que pesquisas sobre voluntariado e liderança jovem tentam medir há quase duas décadas.

Um exemplo é a Deloitte Impact Survey de 2016, feita nos Estados Unidos. Nela, 92% dos profissionais com influência em contratações viram o voluntariado como forma eficaz de desenvolver liderança. Além disso, 80% disseram que voluntários ativos assumem papéis de comando com mais facilidade. A amostra, de 2.506 pessoas, não representa o mercado brasileiro. Ainda assim, aponta na mesma direção do relato de Matheus sobre liderança jovem.

A prova prática dessa liderança jovem veio no Cabanga. Há 14 meses, ele assumiu uma função recém-criada, a coordenação operacional, que vai da náutica à portaria. Tinha 26 anos, e o integrante mais novo da equipe já passava dos 33. Mesmo assim, conduziu conflitos e ganhou a confiança de quem o via como novato. Sem a decisão tomada aos 21, diz ele, hoje não teria maturidade para gerir pessoas e serviços "de um impacto gigantesco".

Antes do clube, houve ainda uma escala na Prudential, como preposto na venda de seguros de vida. Ali, conta, aprendeu que o networking pode ser uma forma sadia de crescer. Em vez de enxergar o colega bem-sucedido como ameaça, passou a perguntar que ferramentas ele tinha usado. Portanto, a liderança jovem de Emannuel se formou em camadas. Vieram a rua da missão, a disciplina das vendas e o chão do clube.

A formação acadêmica acompanha esse percurso. Graduado em Gestão de Pessoas, ele está na metade do curso de Direito. Também acumula cursos de liderança corporativa, tráfego pago e inglês. Agora, mira capacitações em oratória, que considera fundamental para convencer equipes. Esse é, aliás, um tema que a Revista Paradigma aprofunda em outra matéria desta série.

O próximo passo mistura o pessoal e o profissional. Emannuel quer casar e ter filhos. Além disso, mantém com o irmão, Lucas Emannuel, uma sociedade numa empresa de reformas e manutenção de fachadas. Torcedor do Santa Cruz, ele brinca que desistir não está no vocabulário de quem acompanha o time. Para quem estuda liderança jovem, o caso dele sugere uma conclusão. A idade pesa menos do que o tamanho das situações que alguém já teve coragem de enfrentar.

Nesse sentido, a liderança jovem que Matheus Emannuel exerce no Cabanga tem raízes mais antigas do que os 14 meses no cargo. Começou numa mesa de suco de limão e passou por dois anos de missão. Hoje se mede pela confiança de uma equipe que o recebeu com o pé atrás.

Entrevista exclusiva concedida ao Grupo Paradigma para a Nomes que Honram Pernambuco – Ed. 3. Verificação de dados: 2016 Deloitte Impact Survey.