A IA na gestão entrou nas empresas brasileiras mais depressa do que a maioria dos gestores aprendeu a usá-la. Entre 2022 e 2024, a fatia de indústrias de grande porte que adotam inteligência artificial saltou de 16,9% para 41,9%. O dado é da Pesquisa de Inovação Semestral do IBGE, feita com empresas de 100 ou mais empregados. Para Matheus Emannuel Luiz da Silva, coordenador operacional do Cabanga Iate Clube de Pernambuco, o número esconde uma pergunta que nenhuma planilha responde. Quem decide o que a máquina deve fazer?

O cargo dele ajuda a entender a pergunta. Criada há 14 meses, a coordenação operacional do clube simplesmente não existia antes de Emannuel. Hoje, ela atravessa a náutica, a academia, a natação e as quadras de tênis e vôlei. Também alcança os restaurantes, o estacionamento, a portaria e os serviços gerais. Na outra ponta, envolve marinheiros, proeiros, funcionários administrativos e prestadores terceirizados. Antes da IA na gestão, coordenar tudo isso dependia de cadernos, grupos de mensagem e memória.

Foi nesse ponto que a tecnologia entrou na rotina dele. "Eu consigo fazer um roteiro de atividades paralelo à inteligência artificial, que faz otimizar a dinâmica do trabalho em equipe", conta. Na prática, a IA ajuda a montar e revisar planilhas. Enquanto isso, o Trello, uma ferramenta de gestão de tarefas, organiza o fluxo de demandas entre os setores. Assim, o que antes se perdia entre um turno e outro passa a ter registro, responsável e prazo.

A leitura dele sobre o tema, no entanto, corre na contramão de um certo discurso. Muito se fala da IA como ameaça a profissões inteiras. Matheus, por outro lado, descreve um impacto positivo no próprio dia a dia. Ainda assim, ele faz uma ressalva que muda o peso da conversa sobre IA na gestão: "Precisa ter um gestor para poder fazer com que a inteligência seja aplicada."

Os dados do IBGE dão razão à ressalva. Na mesma pesquisa, 54,2% das indústrias que já usam tecnologias digitais avançadas apontaram a falta de pessoal qualificado como obstáculo. Entre as que ainda não usam, o índice sobe para 60,6%. Em outras palavras, o acesso à ferramenta raramente é o problema. O gargalo está em quem sabe transformá-la em rotina.

Há outro dado revelador no levantamento, divulgado em setembro de 2025. Dentro das indústrias que adotaram a tecnologia, 87,9% aplicam IA na gestão administrativa. Portanto, ela chega primeiro onde atua um coordenador como Emannuel: escalas, controles, relatórios e demandas. É ali que um gestor despreparado desperdiça a ferramenta e que um gestor atento devolve horas à equipe.

Para ele, a diferença está na postura de quem lidera. Matheus Emannuel critica o que chama de forma arcaica de comandar. Em suas palavras, é "liderar apenas pessoas por liderar, sem você ter um meio para que o seu trabalho possa ser otimizado". Por isso, atualizar-se deixou de ser escolha e virou parte do cargo. Na visão dele, o líder que ignora a IA na gestão acaba cobrando mais da equipe para entregar o mesmo.

A formação dele reforça essa visão híbrida. Emannuel é graduado em Gestão de Pessoas e está na metade do curso de Direito. Além disso, fez cursos de liderança corporativa e de tráfego pago. O segundo, aliás, o colocou em contato com ferramentas digitais de divulgação e vendas. Agora, ele estuda novas capacitações, como oratória, para ampliar o repertório.

O caso do Cabanga ilustra um movimento maior. Em clubes, condomínios e empresas de serviço, a IA na gestão tende a seguir o mesmo roteiro observado na indústria. Primeiro a ferramenta chega; depois, alguém precisa aprender a conduzi-la. Quem ocupa esse lugar define se a tecnologia vira atalho ou ruído. No caso de Matheus, a resposta aparece em planilhas mais enxutas e tarefas mais claras. Surge também numa equipe que sabe por que faz o que faz.

Essa última parte é o tema da próxima matéria desta série da Revista Paradigma. Ela trata de como a persuasão sustenta o dia a dia de quem lidera gente. Até lá, o recado de Emannuel sobre IA na gestão cabe numa linha. A máquina organiza a lista de tarefas, mas escolher o que merece estar nela continua sendo trabalho de gente.

Entrevista exclusiva concedida ao Grupo Paradigma para a Nomes que Honram Pernambuco – Ed. 3. Verificação de dados: Pintec Semestral/IBGE, via InfoMoney.