A Emenda Constitucional 141, promulgada em 16 de outubro, decretou o fim da 6x1 no Brasil. A partir de 16 de dezembro, a escala 5x2 passa a ser obrigatória e a jornada cai para 42 horas. Um ano depois, o limite chega a 40 horas semanais. Para a engenheira Renata Freire Araújo Lira, o canteiro de obras vai sentir a mudança antes de quase todo mundo. Diretora de controladoria da Estratégica Engenharia, ela projeta uma alta de pelo menos 30% na despesa da infraestrutura.

O número é alto, e Renata explica de onde ele vem. Boa parte das equipes de obra trabalha hoje nas 44 horas semanais. Com menos horas e o mesmo método, a produção da semana encolhe. “Provavelmente vai precisar contratar mais pessoas para garantir a entrega da obra no prazo, ou haverá vários atrasos”, diz.

O dilema do fim da 6x1 tem duas saídas, e as duas custam caro. Ou a construtora contrata mais gente para manter o ritmo, ou aceita esticar o cronograma. Contratar eleva a folha. Atrasar, por sua vez, eleva quase todo o resto: aluguel de equipamentos, administração do canteiro, multas contratuais. Na engenharia de custos, afinal, prazo também é dinheiro.

As entidades do setor, como a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), fizeram as próprias contas. E elas são mais modestas que as de Renata. Para a CBIC, o fim da 6x1 pode elevar em até 15% o custo da mão de obra. Para manter o nível de atividade, o setor precisaria de cerca de 288 mil novos trabalhadores. O custo adicional ficaria em R$ 13,5 bilhões por ano. Pela via das horas extras, o impacto chegaria a R$ 20,3 bilhões anuais.

A diferença entre os 15% da CBIC e os 30% de Renata está no que cada conta enxerga. A estimativa da entidade mede, sobretudo, o custo da hora trabalhada. Renata, por sua vez, olha para a despesa total da obra. Nela entram a produtividade perdida e o prazo que se alonga. Nesse sentido, um levantamento da consultoria CTE, divulgado pela Abrainc, projeta prazos de execução de 9% a 10% maiores.

O efeito do fim da 6x1 não fica restrito às construtoras. O presidente da CBIC, Eduardo Aroeira, reconhece a relevância social da mudança. Mas alerta que, sem transição adequada, o país corre “o risco de encarecer e atrasar a entrega de moradias populares”. O mesmo vale para hospitais, escolas, creches e obras de saneamento. Segundo a entidade, os reflexos devem aparecer já em 2027, num mercado que convive com falta de mão de obra. A preocupação é maior no Norte e no Nordeste, onde o déficit de saneamento continua alto.

Do outro lado, os defensores da medida tratam a redução da jornada como avanço social. Eles apostam, inclusive, que ela pode puxar ganhos de produtividade. Lembram ainda que a última redução constitucional, de 48 para 44 horas, em 1988, também enfrentou resistência empresarial. Além disso, a mudança tem apoio popular. Em março, 71% dos brasileiros defendiam a redução da escala, segundo o Datafolha.

Para quem vive de obra pública, há um agravante: o calendário. A nova jornada chega quase junto com a CBS em alíquota cheia. Foi o que a Revista Paradigma mostrou na primeira matéria desta série. São dois choques de custo em poucas semanas, um sobre a folha e outro sobre os impostos. Para Renata, reforma tributária e fim da 6x1 vão mexer muito com a infraestrutura já no início de 2027.

Os contratos em andamento, no entanto, foram orçados com 44 horas. Por isso, a pergunta que vale bilhões é quem paga a diferença causada pelo fim da 6x1. A CBIC informou que vai acompanhar a regulamentação das novas regras. O objetivo é que elas considerem as particularidades do setor. Enquanto isso, cada planilha de custo precisa ser refeita com a hora mais cara.

Renata diz que é movida a desafios, e este é dos grandes. O fim da 6x1 impõe à engenharia de custos uma equação nova. É preciso produzir o mesmo em menos horas, sem empurrar toda a diferença para o preço. Quem resolver essa conta primeiro entra em 2027 com vantagem. Quem esperar o fim da 6x1 virar rotina para começar, provavelmente, vai pagar a conta inteira.

Entrevista exclusiva concedida à Revista Paradigma para a revista Nomes que Honram Pernambuco – Ed. 3. Dados verificados em: Itatiaia · Portas / CBIC · CBIC.