Antes de uma bolsa de quimioterapia chegar ao braço do paciente, ela passa por mãos que ele raramente conhece. São as do farmacêutico oncológico, que confere a dose, avalia interações e prepara o medicamento em ambiente controlado. Só então o tratamento segue para a enfermagem. Rodny Adriel Gomes Barbosa, farmacêutico especialista em oncologia, conhece esse caminho por dentro. Aos 25 anos, ele já passou por laboratório de manipulação, hospital e clínica oncológica. 

O trabalho cresce no mesmo ritmo da doença. Segundo a Estimativa 2026–2028 do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deve registrar cerca de 781 mil novos casos de câncer por ano no triênio. A projeção anterior era de 704 mil casos anuais. Quando se excluem os tumores de pele não melanoma, de alta incidência e baixa letalidade, o número fica perto de 518 mil. Cada diagnóstico desses tende, portanto, a virar uma prescrição que um farmacêutico oncológico precisa conferir.

Essa conferência tem amparo em norma profissional. O Conselho Federal de Farmácia (CFF) define o preparo de antineoplásicos como atribuição privativa do farmacêutico. Afinal, o mesmo remédio que ataca o tumor oferece risco a quem o manipula. A Resolução CFF nº 640/2017 também fixa uma titulação mínima para o farmacêutico oncológico. Entre os critérios aceitos, está uma pós-graduação em farmácia oncológica reconhecida pelo MEC. Já a Resolução nº 565/2012 detalha deveres que vão do rótulo de cada preparação à orientação ao paciente.

Para Adriel, a virada veio quando passou a lidar com pacientes em tratamento. “Foi daí que eu entendi a minha vocação”, conta. Na leitura dele, há profissionais que gostam do que fazem, mas não têm vocação para aquilo. O contato com pessoas em situação de vulnerabilidade tornou essa diferença visível. Desde então, a meta passou a ser ajudar o próximo e fazer o melhor por ele, sem olhar a quem.

Antes do hospital, porém, a formação passou pela bancada. Ainda no segundo ano da graduação, ele estagiou num laboratório de manipulação em Casa Forte, no Recife. Depois, passou um ano no Real Hospital Português, experiência que antecedeu a especialização em oncologia. Durante o curso, a Pharmapele o contratou como farmacêutico avaliador. Três meses depois, veio a promoção a líder de laboratório, com mais de 60 pessoas sob sua coordenação. Em seguida, vieram a sala de aula, na UNIBRA, e a Oncoclínicas, rede de clínicas de oncologia com unidade no Recife.

Na prática, o farmacêutico oncológico funciona como uma barreira técnica entre a prescrição e o paciente. Na oncologia, a distância entre a dose que trata e a dose que intoxica costuma ser curta. Por isso, cada prescrição passa por uma checagem que considera peso, superfície corporal, exames recentes e ciclos anteriores. Além disso, o farmacêutico oncológico cruza o protocolo com outros remédios que o paciente usa, em busca de interações perigosas. O preparo, por sua vez, exige cabine de segurança biológica e técnica asséptica rigorosa.

Nada do que o farmacêutico oncológico faz aparece para quem está na poltrona da sala de infusão. Ainda assim, cada etapa protege duas pessoas ao mesmo tempo: o paciente, contra o erro de dose, e o manipulador, contra a exposição a substâncias tóxicas. É um trabalho de bastidor que só ganha nome quando falha. Bem feito, ele simplesmente não se nota.

Adriel resume numa palavra o que pretende deixar como marca na profissão: comprometimento. “Para a gente levar o melhor para a população, primeiro tem que se comprometer com o que está fazendo”, afirma. A frase vale para o farmacêutico oncológico e, na visão dele, para qualquer profissional de saúde de Pernambuco. O próximo passo, segundo ele, é um mestrado ou doutorado. O objetivo declarado é oferecer melhor tratamento e melhor condição de vida aos pacientes.

A trajetória que levou Adriel até aqui começou cedo, numa família de Camaragibe que punha a educação em primeiro lugar. É a história que a Revista Paradigma conta em outra matéria desta série.

Da próxima vez que um paciente olhar para a bolsa pendurada no suporte, talvez não saiba o nome de quem a preparou. Saberá, ao menos, que um farmacêutico oncológico conferiu cada miligrama antes dele.