No fim do século XVIII, em Königsberg, Immanuel Kant ensinava a seus alunos que o homem é aquilo que a educação faz dele. Mais de dois séculos depois, um farmacêutico de Camaragibe repete a ideia em sala de aula. Só troca o sujeito: “o jovem pernambucano é aquilo que a educação faz dele”. Rodny Adriel Gomes Barbosa, especialista em oncologia, chama a adaptação de “pernambuquês”. Para ele, a frase resume a própria trajetória e serve também de argumento sobre a educação em Pernambuco.
A ideia original vem de Sobre a Pedagogia, conjunto de preleções de Kant na Universidade de Königsberg. Um ex-aluno, Friedrich Theodor Rink, organizou e publicou o texto em 1803, um ano antes da morte do filósofo. Logo na abertura, Kant afirma que o homem é a única criatura que precisa ser educada. Em seguida, conclui que ninguém se torna verdadeiramente humano senão pela educação, como registra a literatura sobre a obra.
Em Camaragibe, na Região Metropolitana do Recife, a lição chegou por outro caminho. O pai de Adriel, Roberval, é empreendedor. A mãe, Maria Cristina, é professora de formação. Em casa, a escola vinha antes de tudo, para ele e para o irmão gêmeo, Rodger. “Meus pais sempre falaram que a educação muda, transforma e é a ponte para a gente alcançar nossos objetivos”, lembra.
O menino respondeu ao incentivo de um jeito pouco comum. Enquanto outras crianças fugiam dos livros, ele fazia do estudo o passatempo preferido. Nascido de sete meses, entrou no maternal aos dois anos, porque os professores o achavam adiantado para a turma. Assim, quem começa cedo termina cedo: concluiu a escola aos 16 anos e entrou na faculdade de Farmácia aos 17.
Além dos pais, Adriel cita uma professora de redação, Fernanda Pessoa, como figura decisiva. Na visão dele, ela é uma referência para Pernambuco por incentivar a educação como ferramenta de transformação. “Ela me ensinou, além dos meus pais, que a educação transforma”, diz. A frase de Kant, portanto, não chegou a ele por um tratado de filosofia. Chegou por pessoas que fazem a educação em Pernambuco no dia a dia.
A tese encontra eco nos indicadores da educação em Pernambuco. No Ideb 2025, divulgado em agosto, a rede estadual de ensino médio subiu de 4,5 para 4,7. Com isso, Pernambuco ficou entre as três melhores notas do país nessa etapa. A educação em Pernambuco também lidera o ranking do ensino médio em tempo integral. Segundo o Censo Escolar 2024, 69,6% dos alunos da rede estadual estudam nesse modelo. A média nacional é de 24,2%.
A aposta tem raiz antiga. Em 2004, o Ginásio Pernambucano, no bairro de Santo Amaro, no Recife, tornou-se a primeira escola de ensino médio em tempo integral do Brasil. Duas décadas depois, a educação em Pernambuco virou referência nacional nessa etapa. Ainda assim, os números da educação em Pernambuco não contam a história inteira. O que Adriel descreve é o efeito da educação sobre uma vida específica, e não sobre uma média.
Esse efeito ficou mais claro quando ele passou para o outro lado da mesa. Durante quase um ano, Adriel deu aulas na UNIBRA, enquanto liderava um laboratório com mais de 60 pessoas. Foi ali que ele concluiu que o futuro de Pernambuco depende de incentivar jovens a crescer cedo. “A idade não deve ser um muro, e sim uma ponte para a gente alcançar nosso sonho”, defende.
A origem pernambucana, segundo ele, também pesa na equação. Toda a família, do lado materno e do paterno, é do estado, e Adriel associa essa identidade a força, garra e dificuldade de desistir. Por isso, ele vê a resiliência local como combustível para crescer profissionalmente. Hoje, essa resiliência o leva à farmácia oncológica, tema que a Revista Paradigma aprofunda em outra matéria desta série.
O recado que ele quer deixar é para os jovens: independentemente da idade, quem se dedica consegue chegar a qualquer lugar. Kant escreveu sobre o homem universal, em alemão, há mais de duzentos anos. Em Camaragibe, a mesma ideia ganhou sotaque, ganhou sujeito e ganhou um exemplo vivo de que a educação em Pernambuco faz, de fato, o jovem pernambucano.
Entrevista exclusiva concedida ao Grupo Paradigma para a revista Nomes que Honram Pernambuco (Ed. 3). Dados: Diario de Pernambuco – Ideb 2025; Censo Escolar 2024; Folha de Pernambuco; Revista Bioethikos (Centro Universitário São Camilo).

