Quem deixa uma receita numa farmácia de manipulação costuma imaginar que ela segue direto para a bancada. Não segue. Antes de pesar qualquer grama, um farmacêutico lê a prescrição. Ele confere dose, concentração, via de uso e compatibilidade entre os ativos. Rodny Adriel Gomes Barbosa, farmacêutico especialista em oncologia, conhece essa etapa de perto. Na Pharmapele, farmácia de manipulação com atendimento em todo o país, ele começou exatamente nessa função, a de farmacêutico avaliador.

Na farmácia de manipulação, esse filtro tem base legal. A RDC nº 67/2007 da Anvisa rege as boas práticas de manipulação. Entre as etapas obrigatórias, a norma inclui a avaliação farmacêutica da prescrição. A norma também define o farmacêutico como responsável pela manipulação, inclusive pela análise das receitas. Segundo orientação do Conselho Regional de Farmácia de São Paulo, essa análise cobre concentração, compatibilidade físico-química e dose. Também entram na conta a via de administração, a forma farmacêutica e o grau de risco.

O setor que depende desse filtro não é pequeno. De acordo com o Panorama Setorial da Associação Nacional de Farmacêuticos Magistrais (Anfarmag), o país tem cerca de 8.700 farmácias de manipulação. Juntas, elas movimentam R$ 11,3 bilhões por ano, conforme levantamento citado pelo ICTQ. Em cada uma delas, a farmácia de manipulação só existe legalmente com um farmacêutico à frente desse processo.

Na Pharmapele, Adriel viu essa engrenagem por dentro e em escala nacional. Contratado como avaliador enquanto cursava a especialização em oncologia, ele recebeu a promoção a líder de laboratório três meses depois. A partir daí, passou a coordenar mais de 60 pessoas. A pressa, aliás, acompanha a carreira desde a graduação, quando acumulou estágios longos em laboratórios e hospitais. “Eu sempre fui muito agoniado para trabalhar logo e colocar em prática tudo o que estava aprendendo na faculdade”, conta.

O primeiro desses estágios, ainda no segundo ano do curso, foi justamente numa farmácia de manipulação em Casa Forte, no Recife. Depois vieram o Real Hospital Português, a especialização, a Pharmapele, a docência na UNIBRA e a Oncoclínicas. 

Para o cliente, entender esse filtro ajuda a escolher uma farmácia de manipulação. Na avaliação, o farmacêutico procura doses fora da faixa usual e ativos que não podem dividir a mesma base. Além disso, verifica se a forma farmacêutica faz sentido para o uso indicado e se a receita traz todas as informações necessárias. Quando algo não fecha, o procedimento usual é contatar quem prescreveu antes de seguir adiante. Por isso, uma fórmula às vezes demora um pouco mais do que o previsto.

A regra que sustenta esse cuidado, porém, envelheceu. A RDC 67 completou 19 anos em outubro de 2026. Segundo o ICTQ, a própria Anvisa abriu em fevereiro de 2025 a revisão do Anexo IV. Essa parte da norma trata da manipulação de produtos estéreis. Em 2024, das 19 farmácias de estéreis inspecionadas no programa de fiscalização da agência, 16 foram interditadas total ou parcialmente. O debate ganhou força com a corrida por canetas emagrecedoras, que alimentou um mercado clandestino paralelo.

Nesse cenário, a avaliação da receita é o que separa a farmácia de manipulação regular de quem apenas vende fórmulas. Na prática, ela é a garantia de que existe um profissional habilitado, com registro no conselho, respondendo pelo que sai do balcão. É o mesmo rigor que, na oncologia, separa a dose que trata da dose que intoxica, tema de outra matéria desta série da Revista Paradigma.

Entre a letra do médico e o pote na prateleira, há uma leitura que o cliente não vê. É justamente ela que transforma uma lista de ativos numa fórmula segura.

Entrevista exclusiva concedida ao Grupo Paradigma para a revista Nomes que Honram Pernambuco (Ed. 3). Dados: Anvisa – RDC nº 67/2007; CRF-SP; ICTQ; Panorama Setorial Anfarmag.