O primeiro contato de José Correia de Araújo Neto com a diplomacia corporativa aconteceu num lugar improvável. Foi numa vara da Justiça Federal no Recife. Ainda estagiário, ele atendia estrangeiros que pediam naturalização: americanos, chineses, italianos e famílias inteiras que queriam se tornar brasileiras. Hoje consultor de relações governamentais, ele defende que quem faz a ponte entre empresas e governo precisa pensar como diplomata.
A frase que resume a tese é dele. "Todo RelGov, de certa forma, é também um diplomata", afirma Correia Neto, em entrevista à Revista Paradigma. RelGov é a sigla com que o mercado chama o profissional de relações governamentais. O motivo, explica, é que esse profissional precisa transitar entre mundos com regras, códigos e tempos diferentes. De um lado está a empresa, com metas trimestrais. Do outro, a administração pública, com ritos, prazos e hierarquias próprios.
A ideia tem lastro acadêmico. Na literatura de Relações Internacionais, a diplomacia corporativa reúne as atividades com que uma empresa constrói relações com autoridades e com outras organizações. Fazem parte do pacote a coleta e a análise de informação, as recomendações e o relacionamento de longo prazo. É o que descreve um artigo do Boletim Meridiano 47, da UnB. Em outras palavras, a diplomacia corporativa leva para dentro da empresa competências que, por séculos, pertenceram aos Estados.
O segundo estágio de Correia Neto aprofundou esse vínculo. Ele trabalhou no Escritório de Representação do Itamaraty na Região Nordeste, o Erene. Naquela época, o escritório ainda funcionava na sede da Sudene. Esses escritórios regionais aproximam o Ministério das Relações Exteriores de estados, municípios e setor privado, longe de Brasília. Segundo ele, o Erene atende de Sergipe ao Maranhão.
Foi ali que ele aprendeu o ofício na prática. "Esse jeito de tratar com as pessoas. Tem todo um traquejo", lembra. "Uma forma, um trabalho de escrever, de se portar." Vistas de perto, as relações bilaterais e multilaterais lhe ensinaram uma regra simples. O conteúdo de uma proposta depende também da forma como ela chega. Assim, um ofício bem redigido e uma reunião bem preparada valem tanto numa embaixada quanto numa secretaria de governo.
Há uma segunda lição, menos visível. No Erene, Correia Neto percebeu que os estados recebem embaixadores e cônsules e mantêm contatos com eles. Quem detém a representação diplomática, porém, é a União. "A decisão realmente é da União. A lei diz claramente isso", resume. Para uma empresa, o paralelo é imediato: antes de bater à porta, é preciso saber qual porta decide. A diplomacia corporativa começa, portanto, por um mapa de competências.
Depois disso, ele uniu as duas formações. A pós-graduação em diplomacia e negócios internacionais se encontrou com a especialização em relações governamentais, feita no Insper. "Isso é uma conexão", diz o consultor, ao explicar por que escolheu esse tema para esta série. Na visão dele, quem circula entre empresa e governo leva a voz de um lado e traz os sinais do outro. Essa via de mão dupla é a essência da diplomacia corporativa.
Essa tradição tem sotaque pernambucano. Não por acaso, os dois conterrâneos que Correia Neto mais admira foram diplomatas. Joaquim Nabuco, recifense, tornou-se em 1905 o primeiro embaixador do Brasil em Washington. Oliveira Lima, também pernambucano, foi diplomata, historiador e um dos maiores divulgadores do Brasil no exterior.
Curiosamente, os dois discordavam sobre a aproximação com os Estados Unidos. É o que mostra um estudo publicado na Revista de Historia de América. Nabuco apostava na aliança; Oliveira Lima desconfiava dela. Ainda assim, ambos tratavam a negociação como trabalho de longo prazo, feito de leitura, de escrita e de relacionamento. É o mesmo tripé que a diplomacia corporativa exige hoje de quem representa uma empresa diante do poder público.
Para Correia Neto, difundir essa visão em Pernambuco é a próxima meta da carreira. O consultor integra a terceira edição da revista Nomes que Honram Pernambuco, do Grupo Paradigma. Em outra matéria desta série, a Revista Paradigma volta ao homem cordial de Sérgio Buarque de Holanda. O conceito ajuda a explicar por que a diplomacia corporativa precisa começar muito antes do primeiro problema.
Entrevista exclusiva concedida ao Grupo Paradigma para a terceira edição da revista Nomes que Honram Pernambuco. Fontes de verificação: Erene, Ministério das Relações Exteriores · Boletim Meridiano 47, UnB · Revista de Historia de América.

