Enquanto o sol pernambucano nasce e produz energia limpa em profusão, uma fatia dela desaparece antes de chegar a qualquer tomada. O fenômeno tem nome técnico: curtailment. Para Antonio Carlos Coêlho Pereira Neto, advogado especializado em direito regulatório do setor elétrico e vice-presidente da Comissão de Direito da Energia da OAB-PE, ele resume o paradoxo mais evidente do Nordeste. A região sobra energia de dia. Falta demanda à noite. E o sistema resolve o descompasso da forma mais simples que existe: desligando a geração.
No domingo, 28 de junho de 2026, esse curtailment ganhou escala monumental. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) cortou 14.278 MW de geração renovável no Nordeste. É praticamente o equivalente à capacidade total de Itaipu, a terceira maior hidrelétrica do planeta. Por um dia inteiro, uma usina do tamanho de Itaipu simplesmente deixou de existir para o sistema elétrico brasileiro. Não por falha técnica. Por excesso.
Coêlho Pereira explica a origem do problema em termos simples. "Aqui no Nordeste, a gente produz muita energia renovável. Só que ela é gerada principalmente de dia, e o consumo maior é à noite. Por isso, a gente vem sofrendo cortes sistemáticos dessa energia renovável", afirma. A geração solar dispara ao meio-dia. A demanda dispara à noite. E, entre um pico e outro, não existe armazenamento suficiente para conciliar os dois. O resultado é que parte da energia mais barata do sistema simplesmente evapora antes de virar consumo.
O problema não é exatamente abstrato para quem investiu nisso. "É prejuízo para vários empreendedores. Muita gente que colocou dinheiro em energia solar está bastante preocupada com isso", diz o advogado. A conta desse curtailment, aliás, segue sem solução para quem gera a energia. A regulação sobre compensação financeira aos geradores está em discussão na Aneel desde 2019. São sete anos de um problema que só cresce enquanto a resposta regulatória não chega.
A prioridade de Coêlho Pereira, porém, não é simplesmente multiplicar parques eólicos e usinas solares. É garantir que a energia já gerada não se perca no caminho. "É uma demanda dos próprios empresários que a energia solar e eólica seja mais bem aproveitada, sem desperdício", resume. Assim, o desafio deixa de ser produzir mais. Passa a ser produzir com propósito. É uma distinção pequena no discurso, mas que muda inteiramente o tipo de solução jurídica e regulatória necessária.
O tema já ocupa a agenda dos fóruns do setor. No congresso anual do Instituto Brasileiro de Estudos do Direito da Energia, do qual Coêlho Pereira é associado, o curtailment aparece ano após ano como um dos problemas centrais da matriz nordestina. Também a Associação Pernambucana de Energias Renováveis discute o tema anualmente, em evento próprio. O foco, mais uma vez, recai sobre os maiores desafios do setor para o século 21 — com destaque para Pernambuco.
Para o advogado, o curtailment não é apenas uma falha técnica a ser corrigida. É o sintoma mais visível de uma escolha estratégica que o Nordeste ainda não fez. A região gera energia limpa em excesso. Exporta o que sobra para o Sudeste. E descarta o que não cabe na linha de transmissão. Falta, segundo ele, uma decisão maior: transformar esse excedente em motor de desenvolvimento local, em vez de simplesmente apagá-lo todos os dias. É a discussão que a Revista Paradigma aprofunda na próxima matéria desta série, sobre o futuro industrial do Nordeste.
Até lá, o retrato de 28 de junho segue como advertência. Enquanto a legislação sobre compensação não avança, cada domingo de sol forte no Nordeste carrega o mesmo risco de novo curtailment: uma Itaipu inteira de energia limpa, gerada e descartada no mesmo dia, sem que ninguém pague a conta e sem que ninguém, tampouco, aproveite o crédito.

