O Nordeste lidera a produção de energia limpa no Brasil. Ainda assim, segue majoritariamente como fornecedor de matéria-prima para o resto do país. Esse é o retrato exato do que trava a industrialização do Nordeste, segundo Antonio Carlos Coêlho Pereira Neto, advogado especializado em direito regulatório do setor elétrico. Ele é vice-presidente da Comissão de Direito da Energia da OAB-PE. A região exporta energia. Mas não retém o valor que essa energia poderia gerar dentro de suas próprias fábricas.
"A gente hoje está agindo simplesmente como uma bateria de exportação de energia para o Sudeste, enquanto o Nordeste ainda tem muito potencial para crescer em industrialização", resume Coêlho Pereira. A frase carrega o peso de quem viu o setor por dentro. Ele foi advogado e gerente jurídico da antiga Chesf — hoje Axia — durante vinte anos. Nesse período, acompanhou de perto a construção da maior malha de geração e transmissão de energia da região. "A gente tem que restabelecer esse pioneirismo, esse protagonismo, não apenas para ser uma mera exportadora de energia, mas também para atrair indústrias para o nosso Estado", defende.
A tese não nasce isolada. Segundo o advogado, ela é compartilhada pelo professor Reive Barros, ex-diretor da Chesf e da Aneel. Ambos defendem a mesma ideia: trazer a industrialização para dentro do Nordeste, em vez de exportar energia bruta para outras regiões. O argumento segue uma lógica direta. Quem gera a energia mais barata do país deveria também colher o emprego e a renda que ela é capaz de atrair. Não apenas a conta de exportação.
Coêlho Pereira faz questão de delimitar o tipo de industrialização que defende. "Não é uma industrialização a qualquer preço. É utilizando energias renováveis, respeitando o meio ambiente, cumprindo os requisitos do artigo 225 da Constituição", pondera. O crescimento industrial que ele descreve não abre mão da vantagem que o Nordeste já construiu. A região é, hoje, a mais avançada do país em geração eólica e solar. Trocar essa vantagem por uma industrialização predatória seria, para ele, desperdiçar duas conquistas ao mesmo tempo.
Essa industrialização, defende o advogado, também depende de reter conhecimento técnico dentro do próprio estado. "Você não precisa buscar lá fora profissionais que às vezes nem sabem onde fica uma cidade do interior daqui. Pernambuco tem profissionais que podem dar esse suporte, inclusive para novos projetos industriais e de energia limpa", diz. Por isso, a Comissão de Direito da Energia da OAB-PE, ao lado da presidente Anna Manuela, tem um objetivo declarado: formar essa nova geração de advogados regionais. A meta é chegar antes. Antes que o mercado repita, na industrialização, o mesmo roteiro já visto na energia — o valor capturado em outro lugar.
No fim, a defesa de Coêlho Pereira se confunde com sua própria relação com Pernambuco. Ele é filho de uma família ligada à infraestrutura pública do Nordeste há mais de cem anos. Por isso, enxerga na industrialização não apenas uma meta econômica, mas uma questão de identidade regional. "A gente é de Pernambuco para Pernambuco. Para ser grande, não é preciso ser grande em território — temos que ser grande em realizações", resume. A frase ecoa o espírito pioneiro que ele atribui à própria Chesf, a primeira empresa de geração elétrica do Nordeste. Um espírito que, na sua leitura, o estado precisa reencontrar.
Enquanto essa decisão não amadurece, o Nordeste segue no papel que já domina. Gera energia de sobra. Observa-a seguir por linhas de transmissão. E vê essa energia movimentar fábricas em outros estados. A pergunta que Coêlho Pereira deixa no ar é simples de formular e difícil de responder: por que exportar o insumo mais valioso da próxima década, em vez de usá-lo para construir a própria indústria em casa?
Entrevista exclusiva concedida ao Grupo Paradigma para a edição 3 da Nomes que Honram Pernambuco.

