Em 2025, empresas brasileiras desembolsaram R$ 50,6 bilhões em ações trabalhistas, o maior valor da série histórica. Desse total, R$ 22,4 bilhões saíram de acordos. Para o advogado João Batista de Albuquerque Neto, parte dessa conta encolheria com um consultivo trabalhista bem feito. Sócio-diretor da ALBQ Advocacia, ele defende que o empresário trate esse serviço como investimento, e não como gasto. E tem um caso para provar o argumento.
O exemplo vem de um cliente do Recife. Antes do consultivo trabalhista, a empresa respondia a ações de R$ 300 mil, R$ 500 mil, R$ 700 mil. Algumas chegavam a R$ 1 milhão. Hoje, quando um processo aparece, o acordo gira em torno de R$ 25 mil. Além disso, as ações novas pararam de chegar. “Ele hoje é feliz da vida, porque não tem mais processos novos”, conta Albuquerque, em entrevista à Revista Paradigma.
A virada começou com uma auditoria. O escritório chama o modelo de consultivo trabalhista ativo, porque a equipe não espera o cliente trazer a dúvida. “Eu não vou esperar nunca que [o empresário] me pergunte o impacto do divisor da jornada de trabalho de um funcionário dele”, diz o advogado. “Se ele não tem formação jurídica, nunca vai me perguntar isso.” Por isso, a equipe examina contratos, jornadas e folha. Em seguida, aponta o que está errado. Às vezes, mostra também o que está certo sem que o dono saiba por quê.
O diagnóstico do consultivo trabalhista não obriga ninguém a mudar tudo. Diante de cada falha, o empresário escolhe entre dois caminhos. “Ou tu corrige, e talvez tenha uma lucratividade menor, [...] ou tu vai saber o teu grau de risco”, resume Albuquerque. Em outras palavras, o risco que permanece passa a ser controlado. A empresa sabe onde perderia e onde venceria. Assim, deixa de fazer acordo a torto e a direito.
Para tornar isso visível, o escritório usa um termômetro trabalhista que vai de 0 a 100. Quanto mais alta a temperatura, maior a chance de perder processo e dinheiro. O remédio costuma ser simples no papel. Entram aí contratos bem redigidos, banco de horas e compensação de jornada no lugar da hora extra. Albuquerque cita, por exemplo, o contrato de uma folha só, gerado pelo sistema do contador. “A gente diz que o primeiro parceiro da gente é o contador”, ressalta. O problema, segundo ele, surge quando o empresário entrega ao contador uma responsabilidade do advogado.
O caso do Recife também passou pelo acordo, palavra que muito empresário evita. Muitos temem que pagar uma vez estimule novas ações. Albuquerque responde com aritmética. Quem costuma perder R$ 500 mil e passa a fechar por R$ 100 mil economiza R$ 400 mil. “Se você viciar a fazer por 100, você está economizando 400”, afirma. Com dados na mão, a chance de perder R$ 500 mil supera em muito a de vencer e pagar zero. Depois, os valores dos acordos caem aos poucos até um patamar aceitável.
Ainda assim, o advogado sozinho não fecha a conta. Para Albuquerque, o consultivo trabalhista depende de um ecossistema de profissionais. Um técnico de segurança do trabalho qualificado define riscos, insalubridade e grau de exposição. Já o RH organiza a rotina de pessoal. A contabilidade, por sua vez, processa a folha e alimenta o eSocial. Desse modo, a empresa casa a realidade jurídica com aquilo que o sistema permite registrar.
Curiosamente, a crítica mais frequente ao modelo vem de colegas de profissão. Muitos dizem que evitar o processo é um tiro no pé, já que o cliente deixaria de precisar do advogado. Albuquerque enxerga o contrário, porque a legislação muda o tempo todo. O exemplo mais recente é o fim da escala 6x1, cujo impacto a Revista Paradigma detalhou na matéria anterior desta série. Cada alteração na lei cria uma pergunta que o empresário nem sabe que precisa fazer. Cabe ao consultivo trabalhista fazê-la antes.
Os números do escritório sustentam a aposta. A ALBQ Advocacia completa dois anos e reúne 12 advogados. Desde a fundação, mais que dobra de tamanho a cada ano, com dois ou três clientes novos por mês. Hoje atende também empresas de São Paulo e do Rio Grande do Sul. Há, porém, um paradoxo local. Segundo Albuquerque, é mais fácil conquistar um cliente fora de Pernambuco do que no próprio estado. Aqui, o consultivo trabalhista ainda soa como despesa.
Mudar essa percepção sobre o consultivo trabalhista é o legado que ele gostaria de deixar. Albuquerque descreve uma visão mais próxima da americana, em que o advogado entra antes do litígio. Para chegar lá, aposta em uma linguagem sem enfeite, que o dono da empresa entenda na primeira leitura. “O importante é ser entendido, e não falar bonito”, diz. No caso do cliente do Recife, ser entendido saiu bem mais barato do que qualquer condenação.
Entrevista exclusiva concedida ao Grupo Paradigma para a 3ª edição de Nomes que Honram Pernambuco. Dados verificados em: Monitor Mercantil.

