A inteligência artificial já entrou na pequena empresa, mas entrou pela porta mais estreita. Na revisão do contador Marcelo Soares de Moraes, entre os 52 estudos dedicados a micro e pequenas empresas, os que descrevem uso raso, como buscador ou interlocutor, são o dobro dos que descrevem a ferramenta incorporada a uma rotina com regra definida: dez contra cinco. E 78,8% deles não informam com que critério a empresa escolheu a tarefa entregue à IA. Moraes é mestrando em Gestão Empresarial e Inovação e professor de pós-graduação em gestão tributária no Grupo Ser Educacional. Nesse formato, a adoção de IA troca o buscador por um chat. Os processos que consomem o tempo do dono do negócio, porém, continuam intactos.

Os números do mapeamento formam um retrato coerente. Na TIC Empresas 2025, pesquisa do Cetic.br cujos microdados Moraes analisou, 14,9% das empresas brasileiras de 10 a 49 funcionários declararam usar IA. Entre as pequenas empresas de serviços que usam, 77,5% adquiriram sistemas prontos, contratados como serviço, caso de assistentes como ChatGPT, Gemini ou Claude. Só 27,4% desenvolveram algo com equipe própria. “É caro desenvolver uma tecnologia específica para você. Então o pessoal tende a usar as de mercado”, explica.

À primeira vista, o retrato parece contradizer outra pesquisa. Em 2025, o Sebrae apurou que 44% dos donos de pequenos negócios no Brasil usavam inteligência artificial. Entre esses usuários, no entanto, o recurso mais citado eram as ferramentas de texto generativo, como ChatGPT, Copilot e Gemini, mencionadas por 51%. Abrir um assistente para redigir uma mensagem conta como uso. Integrar a ferramenta ao faturamento, à conciliação ou ao atendimento é outra etapa, bem mais rara.

O perfil do empreendedor ajuda a explicar a trava. Quem acumula marketing, comercial, financeiro e operação quer alívio imediato quando assina uma ferramenta, e a expectativa costuma superar o resultado. “A pessoa fica um pouco desestimulada, porque acha que vai resolver a vida inteira, e não é bem assim”, observa Moraes. Dessa forma, a tecnologia vira mais uma aba aberta no navegador, e não uma parte do processo.

O passo seguinte, segundo ele, é usar a IA para executar tarefas, e não apenas para responder. As ferramentas atuais já oferecem um modo de trabalho: recebem um objetivo, acessam arquivos e cumprem etapas sob supervisão humana. Moraes cita a própria rotina como exemplo. Dois computadores dedicados trabalham para o escritório dele, cruzando arquivos XML de notas fiscais com pagamentos e extratos bancários enquanto ele está em reuniões. “Eu tenho mais dois funcionários lá, 24 horas trabalhando”, brinca, referindo-se às máquinas.

O exemplo vem da contabilidade, mas a lógica serve a qualquer pequeno negócio com tarefas repetitivas. Conferir notas, cruzar planilhas e organizar documentos são atividades que consomem horas e seguem regras claras. Justamente por isso, são boas candidatas a sair do chat e entrar no fluxo de trabalho. Antes, contudo, alguém precisa definir o que a ferramenta pode acessar.

Esse salto, no entanto, exige método. Por isso, a pesquisa de mestrado de Moraes propõe um modelo de diagnóstico e priorização em cinco dimensões. Construído a partir de 345 estudos e de dados oficiais brasileiros, ele foi detalhado na primeira matéria desta série. Na prática, a proposta troca a pergunta “qual ferramenta assinar?” por outra mais útil: “qual processo a empresa quer transformar?”.

A distância entre empresas grandes e pequenas não é um problema só brasileiro. Segundo a Eurostat, 17% das empresas europeias com 10 a 49 funcionários usavam tecnologias de IA em 2025. Entre as que têm 250 ou mais, o índice passava de 55%. No Brasil, onde ainda há poucos estudos sobre pequenas empresas, como lembra Moraes, o mapeamento dele ajuda a preencher parte dessa lacuna.

Para o pequeno empresário, o diagnóstico tem um lado incômodo e outro animador. O incômodo é que a assinatura mensal, sozinha, não muda a empresa. O animador é que a distância entre conversar com a IA e trabalhar com ela se mede em método, e método se aprende. Antes de ampliar a adoção de IA, porém, vale lembrar o alerta da segunda matéria desta série da Revista Paradigma. Tudo o que se digita numa ferramenta gratuita pode deixar de ser só da empresa.