Um extrato bancário colado numa janela de conversa. A planilha de clientes enviada para “organizar melhor”. O balancete resumido por um assistente gratuito minutos antes da reunião. Nenhuma dessas cenas parece um incidente de segurança. É justamente por isso que elas preocupam o contador Marcelo Soares de Moraes, mestrando em Gestão Empresarial e Inovação. Na pesquisa que conduz sobre inteligência artificial em pequenos negócios, ele identificou um risco de vazamento de dados que quase ninguém está vigiando.
O número que sustenta o alerta vem dos microdados da TIC Empresas 2025, pesquisa do Cetic.br que Moraes analisou na dissertação. Entre as pequenas empresas de serviços que têm área ou especialista de tecnologia, apenas 2,9% informam um cargo responsável por riscos, segurança ou governança de IA. Nos outros 97%, não há quem responda formalmente pelo que entra nas ferramentas, por quem usa o quê ou para onde vão as informações. E esse é o grupo mais estruturado: às empresas sem ninguém de tecnologia, a pergunta nem foi feita. Na revisão de 345 estudos que forma a outra metade da pesquisa, o vazamento de dados é o risco mais citado, presente em 38,3% deles. “Imagina você colocar dados financeiros, dados de clientes, tudo ali. Você está compartilhando esses dados”, afirma.
O mecanismo é menos misterioso do que parece. Muitas ferramentas abertas ao público usam as conversas para aperfeiçoar seus modelos. No ChatGPT, por exemplo, a central de ajuda da OpenAI informa que a opção “Melhorar o modelo para todos” vem ativada por padrão. Para evitar isso, o usuário precisa desligá-la nos controles de dados. Os planos corporativos, por outro lado, oferecem controles adicionais. “Na grátis, o padrão é compartilhar”, resume Moraes. Segundo ele, algumas versões pagas também podem usar os dados, a depender das configurações.
O problema cresce porque o uso chegou antes da regra. O Work Trend Index 2024, estudo da Microsoft e do LinkedIn, mostrou que 75% dos trabalhadores do conhecimento já usavam IA no trabalho. Desses usuários, 78% levavam as próprias ferramentas para o expediente, sem esperar a empresa. Ao mesmo tempo, 60% dos líderes ouvidos temiam que a companhia não tivesse visão nem plano para a tecnologia. O mercado chama esse fenômeno de shadow AI, ou IA paralela: a ferramenta que o funcionário usa e o gestor desconhece.
Na pequena empresa, essa distância é ainda maior. Não há departamento de TI, jurídico interno ou comitê de segurança. O dono acumula funções, e o funcionário resolve o problema do dia com o que tem à mão. Quase sempre, o que está mais à mão é a ferramenta gratuita. Por isso, o risco e a capacidade de supervisão formam uma das cinco dimensões do modelo que Moraes propõe na pesquisa. O tema foi detalhado na primeira matéria desta série.
A preocupação já pesa nas decisões de investimento. Segundo a Eurostat, 48,8% das empresas europeias que cogitaram usar IA e não seguiram adiante citaram receios com proteção de dados e privacidade. Ou seja, o medo do vazamento de dados trava a adoção em quem pensa no assunto. Em quem não pensa, o risco segue aberto.
Há ainda a camada legal. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) atribui à empresa a responsabilidade pelo tratamento das informações pessoais de clientes e funcionários. Isso inclui os dados que passam por serviços de terceiros. A Autoridade Nacional de Proteção de Dados reúne documentos técnicos e orientativos sobre o tema, inclusive sobre inteligência artificial. Portanto, um vazamento de dados causado pelo descuido de um colaborador continua sendo problema do empregador.
A saída que Moraes propõe começa antes da ferramenta. “Sem um preparo antes do que você pode ou não pode colocar ali, você sofre esse risco”, diz. Na prática, esse preparo pode se traduzir em decisões simples. Quais dados nunca entram numa ferramenta externa? Quais contas a empresa autoriza? Quem revisa as configurações de privacidade? E quem responde quando algo der errado? Responder a essas quatro perguntas já tira a empresa do grupo dos 97%.
O alerta ganha outra camada quando se observa como as empresas usam essas ferramentas: na maioria dos casos, apenas para conversar. É o paradoxo que a Revista Paradigma examina na terceira matéria desta série. Até lá, fica a pergunta que todo dono de negócio deveria fazer antes de colar uma planilha numa janela de conversa: para onde vai essa informação?
Entrevista exclusiva concedida à Revista Paradigma para a revista Nomes que Honram Pernambuco, Ed. 3. Dados de verificação: OpenAI — Perguntas frequentes sobre controles de dados · Microsoft e LinkedIn — Work Trend Index 2024 · Eurostat — Use of artificial intelligence in enterprises · ANPD — Documentos técnicos e orientativos.

