Quem imagina que o maior adversário de um advogado está do outro lado da mesa talvez se surpreenda com a lista de Rodrigo Sales da Silva. Civilista há 17 anos, ele aprendeu “na base da paulada”, como diz, que o primeiro desgaste da profissão vem de quem a contrata. Em seguida vêm os colegas. Por último, a demora da Justiça. Diante dos três, segundo ele, a ética na advocacia é a defesa que depende só do próprio advogado.
“O advogado sofre primeiro. O primeiro inimigo dele é o cliente dele”, afirma Sales. Quem atua no contencioso conhece bem o roteiro. Um cliente contrata um profissional e, uma semana depois, já procura outro escritório. Quer saber se o primeiro fez alguma coisa. A desconfiança tem raízes compreensíveis: processos são lentos e a linguagem jurídica é opaca. Nas causas de família, além disso, o cliente costuma atravessar o pior momento da vida. Ainda assim, a dúvida constante corrói a relação que deveria sustentar o caso.
É nesse ponto que entra o segundo adversário. Quando o cliente insatisfeito bate à porta de outro escritório, o colega pode orientar ou capturar. Sales conta que recebeu muitas vezes pessoas que já tinham advogado, num teste diário de ética na advocacia. A resposta dele era sempre a mesma: procure quem você contratou. O Código de Ética e Disciplina da OAB trata dessa situação no artigo 14. A regra impede o advogado de aceitar procuração de quem já tem patrono, sem o conhecimento prévio deste. As exceções são motivo plenamente justificável ou medida urgente.
A postura tem origem conhecida. Sales atribui a lição ao professor Alexandre Bartilotti, de quem foi aluno. “Rodrigo, seja sempre ético e honesto”, ouviu do mestre. A frase, simples na forma, virou critério de conduta ao longo de quase duas décadas de prática. Por isso, o professor abre o texto que o advogado preparou para a revista Nomes que Honram Pernambuco, na qual será homenageado.
Para Sales, a ética na advocacia aparece justamente quando ninguém está olhando. Recusar um cliente que chega insatisfeito com outro colega não rende honorário nem aplauso. Rende, no entanto, algo que o mercado jurídico demora a construir: a fama de quem não disputa causas por fora. Num meio em que as indicações movem boa parte das contratações, essa reputação pesa.
O terceiro adversário é o tempo. Sales prefere não transformar o tema em bandeira, mas não o ignora. Ele cita um caso recente: R$ 37 mil depositados em juízo em 14 de março deste ano. Meses depois, o valor ainda aguarda o alvará para chegar ao cliente. Para o advogado, a demora tem efeito duplo. Ela adia o direito de quem venceu e alimenta a desconfiança de quem espera. Assim, o terceiro adversário acaba reforçando o primeiro.
Para lidar com esse ciclo, Sales, que hoje cursa Psicologia, foi buscar ferramentas fora do Direito. Segundo ele, a graduação tem ajudado no dia a dia das causas de família. “Tenho conciliado muito problema em relação a isso”, conta. Na leitura dele, entender o que o cliente sente reduz o espaço da desconfiança. E um cliente que confia não sai em busca de segunda opinião a cada semana.
A distinção que ele faz entre a ciência e o ofício ajuda a explicar a lista. “Tenho o direito como ciência, como filosofia, e sou apaixonado”, afirma. “Agora, o exercício da advocacia é realmente complicado.” Entre a paixão pela teoria e o desgaste da prática, Sales encontrou na ética na advocacia o fio que liga as duas.
Por isso, a regra que ele aprendeu cedo continua a mesma. Ser ético e honesto quando o cliente desconfia, quando o colega disputa e quando o processo demora.
Entrevista exclusiva concedida ao Grupo Paradigma para a revista Nomes que Honram Pernambuco, Ed. 3. Referência: Código de Ética e Disciplina da OAB (resumo Projuris).

