Três em cada dez. É essa a proporção de empresas familiares brasileiras que conseguem atravessar a fronteira entre o fundador e a segunda geração. Os dados são do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa, citados em levantamento do Sebrae. Na passagem seguinte, da segunda para a terceira geração, a taxa de sobrevivência despenca para apenas 5%. Entre as causas mais citadas está a falta de planejamento: 44% das empresas familiares pesquisadas simplesmente não têm um plano de sucessão definido.

É exatamente nesse vácuo que o advogado Rodrigo Domingos Zirpoli identifica uma das frentes que mais cresce em sua atuação. "Planejamento sucessório entrou como ponto de atenção para as famílias empresárias", resume. Ele descreve a passagem de bastão de fundador para uma segunda geração como um dos três temas mais presentes em sua rotina. Ao lado dele estão fusões e aquisições e a reorganização societária provocada pela reforma tributária. Não por coincidência: as três frentes, segundo ele, costumam aparecer juntas na mesma mesa de negociação.

Zirpoli é mestre em Direito Comercial pela PUC de São Paulo e doutorando em Direito Comercial na Universidade de São Paulo. Hoje está à frente do Zirpoli Advogados, escritório fundado em novembro de 2025 ao lado da irmã Sophia Zirpoli e da sócia Bruna Casas. Ele enxerga o planejamento sucessório como extensão natural do direito societário, não como um ramo à parte. Reorganizar a sociedade para acomodar a reforma tributária, explica, frequentemente já resolve parte do desenho sucessório. Isso porque redefine como cada herdeiro participa do capital, do voto e da gestão.

A urgência também aparece em outros dados. Pesquisa da Deloitte com empresas familiares brasileiras chega a conclusão parecida. A ausência de papéis claros entre função profissional e vínculo familiar está entre os fatores que mais comprometem a continuidade dos negócios. Some-se a isso a dificuldade de equilibrar a tradição deixada pelo fundador com a renovação que a nova geração exige. Sem um contrato societário, um protocolo familiar ou uma governança que separe essas duas dimensões, a sucessão vira disputa emocional disfarçada de disputa jurídica.

A própria trajetória de Zirpoli ilustra essa dinâmica pelo avesso. Ele é filho de um empreiteiro que viveu, segundo suas palavras, "uma montanha russa" financeira por causa da dependência de contratos públicos. Cresceu ouvindo da mãe o conselho de buscar estabilidade em concurso público. Escolheu o caminho oposto: fez direito justamente para atuar no setor privado. Hoje ajuda outras famílias empresárias a evitar o mesmo tipo de instabilidade que observou de perto quando criança. Seu irmão mais velho seguiu para a engenharia civil, como o pai. Sua irmã Sophia, mais nova, tornou-se sua sócia.

Do lado técnico, o trabalho de planejamento sucessório passa por estruturas societárias, acordos de acionistas, holdings patrimoniais e testamentos. Mas também passa por algo que a advocacia tradicional demora a admitir: conversas difíceis entre pais e filhos sobre poder, dinheiro e legado. A área de origem do escritório de Zirpoli reúne ainda direito trabalhista, administrativo, propriedade intelectual, imobiliário e contencioso cível. Para ele, uma sucessão bem-sucedida depende de tratar a empresa como organismo que sobrevive ao fundador, não como extensão dele.

Enquanto 44% das famílias empresárias brasileiras seguem sem qualquer plano formal de sucessão, o recado de quem lida diariamente com esses casos é direto. Quanto mais cedo a conversa sobre sucessão começar, menor a chance de a empresa entrar para a estatística dos 70% que não sobrevivem à segunda geração.