Essa é uma indagação que ainda me faço diante dos crescentes números da violência doméstica ou de gênero e mesmo diante das tantas subnotificações que não duvido sejam, igualmente, assombrosas.
Atualmente, escutamos falar que o fenômeno poderia ser considerado epidêmico, porque invadiu regiões, esteriótipos e toda diversidade possível de pessoas; contudo, nunca se esclareceu se o grande marco dessa revelação ou quebra de silêncio tenha sido pelo acesso aos meios de conhecimento e informação, pela credulidade na providência punitiva ou se o medo de permanecer acabou sendo maior do que o receio de calar, a partir dos tantos precedentes de mulheres mortas, sem falar, nas tantas “quebradas” por dentro, em lentos falecimentos emocionais, morais, patrimoniais e sobretudo, psicológicos.
A origem do problema, não se duvida, é antiga. Esteve nas diferenças nutridas e herdadas do patriarcado e do machismo estrutural. Por outro lado, por que depois de tantos movimentos legais, filosóficos e impostos pelo novo mundo, que pareceu exigir acessos livres ao formato digital, aos gostos, escolhas pessoais e à liberdade do ser, restaram, paradoxalmente, e ainda, tantos núcleos familiares regidos pela opressão entre as pessoas, que se colocam inovadoras em quase tudo, sob a égide “dos direitos iguais”, entretanto, inadequam-se ou insurgem-se contra espaços predominantemente femininos, salários e dignidade iguais, trabalhos e funções correspondentes ou, saindo do teórico ao prático, ainda machucam, criticam, exploram, cobram, abusam, subjugam, violentam e matam.
Ora, se é certa a acepção da dor humana, não seria surpreendente dizer que a vulnerabilidade de uma mulher ou sua hipossuficiência transcende a percepção externa ou rotulada que dela se possa fazer, pela família de origem, nível de instrução, cargo que ocupe, postura ostensiva e aparente plenitude de vida, porque, de fato, o que a fragiliza e ainda surpreende uma sociedade, do seu silêncio ao grito, é o fator emocional e todo o conjunto das suas vivências lacradas na alma, que a depender dos gatilhos experimentais e de tudo que apreendeu ao longo dos anos, possam inseri-la e mantê-la no ciclo da violência, nome que marca os relacionamentos abusivos, agravando-se por fases, que vão, desde a angustia e o medo, passando pela explosão e acabam mantendo-a alienada de si mesma, pela presumida ou aparente tranquilidade, pelo costume ou acomodação nesses altos e baixos capazes de destruir sua autoestima e psicológico, podendo até matá-la, caso não saia desse relacionamento a tempo.
Cumpre refletir, por oportuno, que mulheres que se estruturam por dentro, tratando das próprias feridas ou dores, tão normais e inerentes ao humano, bem como as que tem família ou rede de apoio por perto, tendem a se libertar dessa dependência emocional de forma mais exitosa ou menos avariada; contudo, o que fazer com esse trauma e precaver-se de novos é o grande desafio que se dá a uma mulher, vítima.
Ainda falta algum percurso para que uma mulher, independentemente das suas vivências não atraia novos dissabores, a exemplo de padrões de relacionamentos iguais, por carência ou pressa de mostrar a sua equivocada e imediata superação; outrossim, que a pretexto da sua autoestima destruída, para se autoafirmar não destrua outras mulheres, em sua solitude ou relacionamentos delas, enfraquecendo, ainda mais, nossa almejada sororidade; que não se imponha de modo violento ou superior por onde quer que esteja, não se lembrando que a nossa luta ainda clama por igualdade ou isonomia; por fim, que não seja, a pretexto da própria dor, causa de dores alheias, que, inclusive, perpassem pela vigança ou inserção dos(as) filhos(as) e quem mais de fora for, que cruze seu caminho, usando como argumento para curar-se, o ilegitimo direito de ferir.
Afinal, nessa “batalha” de escolhas e do livre arbítrio, as pessoas sempre reverberarão suas emoções e poderão levar ou trazer sentimentos positivos ou não; contudo, escolher qual caminho seguir, onde permanecer e o que fazer com o que o mundo entrega, para ressignificar do melhor modo, sempre será uma decisão da mulher e quanto mais racional e, inarredavelmente, ética for, teremos uma, elevando todas as outras, como também na queda ou no desalinho, o enfraquecimento será, inevitavelmente, de todas nós, mulheres.
* Dalva Cabral é Promotora Criminal da Capital, do MPPE, lotada num dos Tribunais da Capital, o Segundo. Coordenadora do Núcleo da Pessoa com Deficiência. Presidente do Instituto do Ministério Publico de Pernambuco. Pós Graduada em Direito Processual, Especialista em Violência contra Criança e Adolescente pela USP. Concluinte do curso de Psicanálise Clínica. Membro da ABCCRIM e da ABMCJ. Escritora, Professora e Palestrante.

