Quem cresce em uma casa de mulheres guerreiras aprende cedo que a vida é cuidado. Minha mãe, professora e educadora social, ensinou-me — pelo exemplo, mais do que pelas palavras — que cidadania não se contempla: se constrói, passo a passo, de mãos dadas. Cresci nesse chão, ao lado de uma avó que sustentava o lar enquanto minha mãe lutava pelas escolas comunitárias. Comecei dando aulas. Passei pelos sindicatos e pelos conselhos públicos. Tornei-me advogado porque queria oferecer mais.
Essa história, aliás, segue se repetindo. Em milhões de casas brasileiras, são ainda as mães e avós que seguram o teto e abrem caminhos onde o Estado não chega. A cada geração, a sociedade pede, sem saber pedir, a mesma coisa: oportunidade. E é dever de quem já chegou — de quem teve, em algum momento, uma porta aberta diante de si — manter outras tantas abertas e em movimento.
No meio do caminho, descobri uma verdade que demorou cinco décadas para se assentar: ninguém pode dar o que não tem.
Servir os outros é uma das vocações mais nobres que conheço. Mas, sem perceber, acumulei a ideia silenciosa de que cuidar de mim era um luxo a ser adiado. As causas, os conselhos, a militância — tudo parecia mais urgente que uma pergunta simples: como você está? O corpo respondeu por mim. Vieram os mais de 140 quilos, as noites mal dormidas, o cansaço travestido de mérito e a saúde em alerta. Era um aviso.
Hoje, depois de uma redução de estômago, de uma abdominoplastia e — sobretudo — de uma reorganização interior, carrego a convicção de que amor-próprio não é vaidade. É estrutura. É a base sobre a qual qualquer entrega ao outro pode se sustentar com altivez.
A cidadania que defendo, há mais de três décadas, é a mesma: o direito de cada pessoa a uma vida digna, numa sociedade mais humana, justa e solidária. Oportunizar crescimento e desenvolvimento humano e social a quem precisa não é favor — é dever de uma sociedade civilizada. E começa, em cada um de nós, na decisão íntima de também cuidar de si.
Por isso, deixo a quem me lê uma proposta: olhe para si com a mesma seriedade com que olha para as causas que abraça — e abra portas a quem ainda não teve a sua. Porque, na minha experiência, este é o ato que torna possível todos os outros.
* Fenelon Pinheiro é advogado com atuação nas áreas cível, empresarial, pública, tributária, constitucional e criminal, com ênfase em direitos humanos e direitos sociais. Controlador Interno do Poder Legislativo de Olinda e presidente da ABRACE — Associação Brasileira de Cidadania e Educação. Foi Vice-Presidente do Conselho Estadual de Direitos Humanos de Pernambuco (CEDH-PE), representando a OAB/PE e a sociedade civil, além de ter sido Vice-Presidente do Movimento Tortura Nunca Mais de Pernambuco e do Centro de Memória Política. foi Diretor Pedagógico e, posteriormente, Vice-Presidente da ANDHUS — Associação Nacional de Desenvolvimento Humano e Social.

