Nos domingos de infância de Guilherme Guerra, a mesa do bairro da Torre não cabia em si. Reunia filhos, netos, amigos e admiradores em torno do avô Adalberto Guerra, o homem que dera à advocacia da família "muita retidão, muita corretude, muita energia, e o espírito agregador, de reunir família, reunir amigos". Não era almoço, era ensaio: o rascunho, ainda em toalha de mesa, do que o Moraes Guerra Advocacia (MGA) se tornaria décadas depois, um escritório que trata sócios como parentes e clientes como convidados de honra. A mesa da Torre não existe mais fisicamente. Mas sua função sobrevive, ampliada, na sala de reuniões da Av. Conselheiro Rosa e Silva, onde hoje se sentam seis pessoas de seis décadas diferentes da vida, e onde só se chega subindo.

Porque toda mesa farta começa pequena, e a do MGA cresceu por uma escada, não por uma árvore genealógica. Mônica Rocha Correia tem 60 e poucos anos. Guilherme Guerra tem 50 e poucos. Tadeu Reis de Melo e André Oliveira Souza têm 40 e poucos, cada um no seu degrau cronológico. Yuri Oliveira tem 30 e poucos. Beatriz Guerra, 20 e poucos. Cinco degraus, seis nomes, uma escada só, e no topo dela, sempre, a mesma mesa. Há quem confunda longevidade com repetição, como se durar significasse fazer sempre a mesma coisa, do mesmo jeito, pelo maior tempo possível. O MGA prova o contrário: dura mesmo é quem aceita mudar de roupa sem trocar de alma, e quem entende que uma escada não se sobe sozinho. Sobe-se com quem já subiu antes, para se sentar com quem ainda vai subir depois.

No degrau cronológico mais alto está Mônica Rocha Correia, e é preciso dizer logo o que a torna exceção dentro da própria exceção: ela chegou ao topo da escada, e à mesa, sem nunca ter nascido Guerra. Formada pela Universidade Federal de Pernambuco, com pós-graduação em Docência do Ensino Superior pela FADEPE, Mônica construiu uma carreira inteira antes mesmo de conhecer aquele endereço: foi professora convidada em cadeiras de Legislação Ambiental na Escola Ruy Antunes, na Faculdade de Ciências da Administração de Pernambuco, no Departamento de Oceanografia da UFPE e na Escola Politécnica da UPE. Atuou como assessora jurídica no Ministério Público, junto ao Centro de Apoio Operacional da Coordenadoria de Meio Ambiente, e chefiou a assessoria jurídica da CPRH, a agência estadual de meio ambiente, onde se especializou no direito que mais tarde definiria sua trajetória. Passou pela Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente, coordenou o Núcleo do Meio Ambiente da Sala Verde na FADURPE e integrou o núcleo multidisciplinar de estudos ambientais da ESAPE, além de ter sido vice-presidente da Comissão de Meio Ambiente da OAB/PE. Trabalhou treze anos no Grupo Industrial João Santos como advogada da área ambiental, foi sócia do escritório Urbano Vitalino respondendo pela mesma área e presidiu a diretoria da região Nordeste da União Brasileira da Advocacia Ambiental. Hoje é sócia do Imobiliário Ambiental e Urbanístico do MGA. Uma vida inteira de direito ambiental, degrau por degrau, antes de puxar a própria cadeira naquela mesa.

Um degrau cronológico abaixo, Guilherme Guerra, formado em 1994, à frente do escritório desde 1998. É dele a lembrança mais antiga da mesa da Torre, e é dele também a responsabilidade de ter transformado aquele ensaio de infância em rotina de trabalho. Foi Guilherme quem especializou de vez a banca em direito imobiliário, quem fundou a GMG Premiere ao lado dos sócios Lucian Fragoso, Sandro Guedes e André Coutinho, quem conduziu o escritório pela pior crise imobiliária de sua história, quando os distratos saltaram de 3% para 30% dos contratos, e quem ajudou a escrever a Lei 14.382/22, responsável por criar o Sistema Eletrônico de Registros Públicos no Brasil. Casado há mais de duas décadas com Cândida Guerra, pai também de Luísa e do caçula Guilherme Filho, resume assim o que aprendeu observando avô e seu pai Murilo Guerra à cabeceira daquela mesa: "a capacidade de se reinventar, acredito, sempre teve presente em todas as gerações, o que assegurou, certamente, a nossa longevidade". E resume também, em uma frase que hoje soa quase profética, o princípio que sustenta a escada inteira: "a resistência é o oposto da resiliência".

No mesmo degrau cronológico, dividindo os 40 e poucos anos, dois nomes que chegaram à mesa do MGA por portas diferentes e hoje ocupam a mesma cadeira de área. André Oliveira Souza é procurador do Estado de Pernambuco desde 2006, diplomado pela Universidade Católica de Pernambuco, pós-graduado pela Escola de Magistratura de Pernambuco, com especializações em Direito Público e Direito Ambiental, ex-professor da FACAPE e instrutor da Escola de Governo de Pernambuco. Hoje é sócio responsável pela área imobiliária, urbanística e ambiental do escritório, o mesmo terreno que Mônica lavra há décadas, agora compartilhado. Tadeu Reis de Melo começou a advogar em 2005, na cobrança de contas hospitalares e no direito da saúde, antes de redirecionar inteiramente a carreira para o imobiliário. Foi ele quem, ao lado do então estagiário Yuri Oliveira, sentou-se do outro lado de uma mesa bem menos festiva, a de audiência, para criar uma tese jurídica que mudaria a rotina de milhares de condomínios pernambucanos: diante de cobranças que se arrastavam na Justiça Comum e de Juizados Especiais que não fixavam honorários de sucumbência, a dupla estruturou a fundamentação para incluir os honorários advocatícios como despesa processual do próprio condomínio, respaldada em convenções e regimentos internos. A tese abriu precedentes e permitiu recuperar créditos sem gerar custo adicional às comunidades. Não é pouco: é o tipo de solução que só nasce de quem trata o direito como ofício, não como repetição.

Um degrau cronológico abaixo, Yuri Oliveira, que entrou no escritório de Tadeu como estagiário em 2010, formou-se em 2015 pela Faculdade de Direito do Recife e, junto do mentor, fundou o Reis de Melo, Oliveira, escritório que se fundiu ao MGA em 2020 para assumir a frente do segmento condominial. Foi Yuri quem idealizou o Sindicalize-se e a plataforma Sindicalize Academy, iniciativas de formação técnica e comportamental para síndicos, ensinando desde a condução correta de assembleias até a desmistificação de mitos populares como a chamada "lei do silêncio". Tadeu e Yuri fundaram ainda a Lide, empresa de assessoria e recuperação de taxas condominiais que hoje atua em quase todo o Nordeste e que tem como sócios, além de Tadeu e Yuri, Guilherme e Beatriz. Um estagiário que virou sócio, um sócio que virou professor de síndicos: eis um degrau construído sem herança nenhuma, só trabalho, e uma cadeira conquistada, não herdada.

E no último degrau cronológico, Beatriz Guerra, formada em 2023 pela Universidade Católica de Pernambuco, fechando a quinta geração da família no mesmo endereço. Definiu com precisão, ainda estudante, o que herdava e o que construía por conta própria: "O Direito nos conecta ao passado, enquanto o mercado imobiliário nos dá a chance de construir o futuro." Hoje decide ao lado dos sócios, na mesma mesa de reuniões onde antes só se sentavam pai e filho, os rumos do MGA e da GMG, com atuação destacada na gestão e na comunicação das duas empresas, funções que o século passado sequer nomeava e que o MGA do século vinte e um trata como extensão natural do mesmo ofício.

Seis nomes, cinco degraus cronológicos, uma mesa só no topo da escada. A contagem de sangue começa em 1906, quando Manoel Claro de Moraes Guerra deixou o canavial da Mata Norte para se formar pela Faculdade de Direito do Recife, selando "nossa tradição e nossa relação com a velha casa de Tobias". Passa por Adalberto, em 1936, por Murilo Guerra, em 1965, que especializou a banca no imobiliário, por Guilherme, em 1994, e por Beatriz, em 2023. Mas a contagem de gente é outra, e sempre foi: desde a terceira geração, o MGA vem emprestando seu sobrenome, e um lugar à mesa, a quem não nasceu com ele. João Cruz de Oliveira, Juarez de Paiva Macedo e Manoel Cavalcanti abriram o precedente décadas atrás; hoje, Tadeu, Yuri, Mônica e André dão sequência ao mesmo pacto, cada um chegando ao seu próprio degrau por um caminho que nada tem a ver com o berço dos Guerra, e todos chegando, ao final, à mesma cadeira ao redor da mesma mesa.

O diferencial que sustenta tudo isso, segundo Guilherme, não está em nenhuma tese jurídica sofisticada, mas em algo quase artesanal: "o extremo respeito ao cliente, sobretudo o extremo respeito às pessoas". É esse zelo, replicado por sócios que nunca dividiram sangue mas dividem endereço, cadeira e reputação, que transformou um curso de Direito iniciado por um filho de senhor de engenho em uma das bancas imobiliárias mais respeitadas do país.

Na sala de reuniões do MGA, duas capas de revista dividem a mesma parede desde que foram publicadas, e ambas foram fotografadas na mesma mesa que Guilherme herdou do avô sem nunca ter deixado de aumentar. Em 2019, "Tal pai, tal filho" registrou a dupla Murilo e Guilherme Guerra, sentados um ao lado do outro. Cinco anos depois, "Tal pai, tal filha" trouxe Guilherme ao lado de Beatriz, na mesma mesa, outras duas cadeiras. Agora, aos cento e vinte anos, chega a terceira moldura, e pela primeira vez ela não cabe em dois retratos: cabe em seis, todos sentados à mesma mesa que um dia coube inteira num quintal da Torre, numa escada que sobe do topo de Mônica ao começo de Beatriz, passando por Guilherme, por André, por Tadeu, por Yuri. Tradição, aprende-se com essa escada e com essa mesa, não é o que resiste ao tempo. É o que aceita ser reescrito por ele, degrau após degrau, cadeira após cadeira, sem nunca perder a caligrafia. Tal família, tal legado: toda mesa farta começa pequena, e o direito que Manoel Claro escolheu em 1906 ainda escolhe, todos os dias, quantas cadeiras vai levar para caber quem carrega esse legado adiante.