Tem uma frase que uma mãe me disse dentro do meu escritório e que eu não consigo mais esquecer. Ela tinha um filho autista, fazia Uber para sobreviver e chegou até mim achando que eu ia entender — porque eu também tenho um filho autista. Eu disse que sabia o que ela estava sentindo.

Ela me olhou e falou: “Doutora, a senhora não sabe. Quando a senhora procura um biscoito dentro da sua casa para dar pro seu filho, a senhora tem. Quando eu procuro, não tem.”
Eu fechei a boca. E aprendi mais naquele minuto do que em muito tempo de estudo.

A mãe atípica não aparece nas estatísticas que a gente conhece. Ela aparece dentro do Uber com o filho em crise enquanto os passageiros reclamam. Ela aparece na fila do Alô Consulta esperando uma consulta que não chega. Ela aparece no escritório com a cara cansada de quem não dormiu, mas ainda assim arrumou o filho, preparou a mochila e veio.
70% das mulheres que atendo foram abandonadas pelos maridos. Sete em cada dez. Porque o pai não aguentou o peso. E a mãe ficou.

Mãe não abandona filho. Isso não existe. Mesmo sem energia, sem emprego, sem saber o que vai colocar na mesa — ela fica. E ela cuida.

Eu sei isso porque vivo isso. Pedro Lucas tem nove anos, é autista de nível moderado, e ele me ensinou que dinheiro não resolve nada que realmente importa. Em 2019 eu estava no auge, comprei um apartamento em Boa Viagem, subi no oitavo andar e olhei a vista. Lindo. Aí olhei pro meu filho e vi que aquele ambiente não era pra ele.
Ali acabou uma ilusão e começou um propósito.

Hoje atendo mães atípicas com a psicanálise que estudei justamente por causa dele. Escuto. Direciono para médicos, consigo laudos, entro com ação de saúde, pago avaliação quando a mãe não tem condição — porque BPC sem tratamento não serve pra nada.
E estou construindo um projeto: um espaço onde essa mãe pode fazer o cabelo, pintar a unha, sentar com uma psicanalista e respirar. Porque ela cuida de todo mundo, e ninguém cuida dela.

Esse projeto vai existir. Eu já visualizei. E quando eu visualizo, é porque Deus já aprovou.

* Luciana Lins é fundadora e gestora do Lins Advogados, com cinco unidades em Pernambuco, especialista em Direito Previdenciário e psicanalista com foco em mães atípicas.