Uma Nova Página na História da Instituição

Quando Ingrid Zanella tomou posse na presidência da OAB Pernambuco, em novembro de 2024, a história da instituição dobrou um canto de página que esteve engessado por quase um século. Ao seu lado, já empossada na vice-presidência, Schamkypou Bernardo Bezerra completava a frase que a advocacia pernambucana levou 92 anos para terminar: a de que o ápice da representação jurídica estadual poderia, finalmente, ser habitado por duas mulheres.

A Substância de uma Gestão Transformadora

Quase dois anos depois, com a Paradigma Jurídico chegando às mãos de seus leitores neste agosto de 2026, o que se pode avaliar é precisamente o que vale ser avaliado: não o simbolismo da posse, não a fotografia do dia da eleição, mas a substância do que foi construído ao longo dos primeiros dezoito meses de gestão. A advocacia pernambucana é exigente. Ela reconhece discurso vazio com a rapidez de quem já viu muito dele. E o que essa dupla entregou, até aqui, pertence a outra categoria.

A Trajetória de Ingrid Zanella

Ingrid chegou ao cargo sem herança de apadrinhamento e sem cargos herdados de linhagem. O que ela carregava era uma biografia que começou na defesa de colegas no pátio do Salesiano e atravessou o convés de um navio de cruzeiro para aterrissar, com autoridade científica, no Direito Marítimo. Doutora pela UFPE, única figura do Nordeste a ocupar assento como juíza suplente no Tribunal Marítimo, ela não chegou ao topo com o empurrão de um padrinho político. Chegou com os mais de onze mil votos de uma classe que reconheceu, no acúmulo do trabalho, algo que o discurso fácil jamais substitui: competência verificável. Cada metro de influência conquistado foi negociado com tenacidade, não com favor.

O Legado Educacional de Schamkypou Bernardo

Schamkypou, por sua vez, carrega a distinção de quem transformou o conhecimento em via de acesso coletivo. Com 23 anos dedicados ao Direito do Trabalho, professora universitária por 16 anos e fundadora do Schamky Cursos Jurídicos, ela não apenas formou advogados: foi responsável direta pela aprovação de 14 mil candidatos no Exame de Ordem. Quatorze mil. Cada um desses profissionais carrega, em sua carteira da OAB, um fragmento do método de quem ingressou na faculdade aos 16 anos com a clareza de quem já sabia o que fazer com o tempo. A presidência da Comissão de Educação Jurídica da seccional foi o ponto onde a vocação do magistério e a visão institucional se encontraram sem mediação. Ali, o laboratório e o fórum passaram a funcionar com o mesmo propósito, a mesma seriedade, a mesma urgência.

A Sinergia entre Governança e Acesso

A questão que importa ao leitor desta revista, ao profissional que acompanha a movimentação da seccional, é direta: o que acontece quando a presidência é ocupada por quem operou na escassez e a vice-presidência por quem multiplicou o acesso? A resposta está sendo escrita ao longo do triênio 2025-2027.

A Metodologia de Gestão de Ingrid Zanella

Ingrid governa com a metodologia de quem aprendeu a planejar dentro de um ônibus lotado no Recife. Avalia o cenário, pondera as rotas, esmiúça as variáveis antes de qualquer veredito. Sua gestão da OAB-PE carrega a marca de quem rejeita o diálogo sem desfecho, a reunião sem meta, a intenção sem prazo. A classe percebeu isso cedo. A transparência nos processos, o acolhimento do sertão e da capital com o mesmo peso, a recusa ao comando solitário: esses valores ela não exibe em discurso. São hábitos que pratica antes das cinco da manhã, quando a cidade ainda dorme e o planejamento já está sendo feito.

A Visão Educadora na Vice-Presidência

Schamkypou age com a precisão de quem sabe que ensinar é, antes de qualquer outra coisa, um ato de responsabilidade pública. Na vice-presidência, ela traz o olhar da educadora para cada pauta: a formação da nova geração de advogados pernambucanos tratada como prioridade que não negocia com urgências menores. Ela pode estar em um tribunal de manhã, gravar uma aula ao meio-dia e participar de uma reunião estratégica da seccional à tarde. Essa fluidez entre a prática forense, o ensino e a gestão institucional é o que a distingue: ela não divide a atenção entre frentes; ela multiplica o impacto de cada uma por causa das outras.

Poder e Propósito na Cúpula

O que as torna singulares como dupla, mais do que individualmente, é a disposição para habitar o poder sem se confundir com ele. Ingrid não preside para ser presidenta; preside para que a advocacia prospere. Schamkypou não ensina para ser reconhecida como professora; ensina porque o ensino é a ferramenta mais eficiente que ela conhece para redistribuir as oportunidades. Uma governa a casa. A outra cuida das suas fundações. Uma protege os que já chegaram; a outra amplia a porta para os que ainda vêm.

Decisões e Concretude no Triênio

A história da OAB-PE neste triênio não será contada pelos cargos, mas pelas decisões. Pela saúde da advocacia como projeto concreto, pela valorização dos honorários como defesa genuína do ofício e pelo alcance que uma seccional consegue ter quando suas conduções tratam o interior como extensão natural da capital, e não como periferia a ser visitada em ano eleitoral. Governar assim exige a mesma musculatura que ambas já provaram ter em outros campos: a de quem não escolheu o caminho mais curto porque entendia que o mais longo é o único que sustenta o peso do que se carrega.

Conclusão: O Combustível do Trabalho Real

Quando Ingrid e Schamkypou chegaram juntas à cúpula da OAB-PE, a pergunta que pairou foi previsível: quanto tempo dura o entusiasmo do inédito? A resposta, quase dois anos depois, também é previsível para quem conhece os percursos de ambas. Entusiasmo nunca foi o combustível de nenhuma das duas. O combustível, em ambos os casos, é mais antigo e muito mais resistente: o trabalho que gera o resultado, o resultado que alimenta a esperança, a esperança que mantém o passo.

Pernambuco está, neste agosto de 2026, diante de uma OAB conduzida por duas mulheres que chegaram até aqui pelo caminho mais longo. E, precisamente por isso, pelo mais sólido.