A IA na advocacia chegou com a promessa de devolver tempo aos escritórios. Petições em minutos, pesquisas de jurisprudência em segundos, contratos revisados antes do café. No entanto, o advogado Antonio Loureiro Marciel Neto faz um alerta pouco comum nas propagandas das plataformas jurídicas. Professor há 14 anos e doutorando em Direito, ele lembra que a máquina não escolhe o que vai ampliar.

“A inteligência artificial potencializa a sua atividade. Então, se você tem uma atividade desorganizada, a inteligência artificial só vai potencializar a desorganização”, resume ele, em entrevista exclusiva à Revista Paradigma. Por isso, antes de qualquer ferramenta, Loureiro cobra do profissional algo menos glamoroso: responsabilidade com o básico.

O raciocínio tem lógica de engenharia. Um processo interno confuso gera prazos perdidos; prazos perdidos geram clientes insatisfeitos; clientes insatisfeitos geram um escritório que corre atrás do prejuízo. Com a IA na advocacia, essa corrente não se rompe. Pelo contrário, ela apenas ganha velocidade.

O cenário ajuda a medir a escala da questão. Segundo o quadro oficial do Conselho Federal da OAB, o Brasil tem mais de 1,5 milhão de advogados regulares. Desses, 47 mil atuam em Pernambuco. Em um mercado desse tamanho, qualquer ganho de produtividade vira vantagem competitiva, e qualquer atalho mal usado vira risco coletivo.

A própria Ordem reconheceu o problema. Em novembro de 2024, o Conselho Federal aprovou a Recomendação nº 001/2024, sobre o uso de inteligência artificial generativa na prática jurídica. O texto se apoia em quatro pilares: legislação aplicável, confidencialidade, prática ética e transparência com o cliente sobre a tecnologia. Além disso, reforça que o Código de Ética continua valendo, com ou sem robô.

Loureiro, ainda assim, não se alinha aos que torcem o nariz para a novidade. “Não dá para dizer que eu sou contra o uso da inteligência artificial. Muitos assim se posicionam. Eu não. Eu acredito que ela é um caminho sem volta”, afirma. Na leitura dele, a ferramenta serve para absorver o trabalho repetitivo. Assim, sobra tempo para o advogado pensar no estratégico, algo que muitas vezes ele não tinha espaço para fazer.

Há, porém, uma preocupação com a IA na advocacia que vai além do escritório. “O que me preocupa nesse cenário é a perda da capacidade crítica do ser humano”, diz Loureiro. “As pessoas têm jogado para a inteligência artificial a responsabilidade de pensar e refletir sobre seus próprios problemas.”

O ponto técnico por trás da frase é simples de entender. Os modelos de linguagem funcionam por probabilidade: montam a resposta mais provável para a pergunta feita. Segundo o professor, isso tem um efeito colateral pouco discutido. “Ela vai sempre te trazer a resposta mais provável, muitas vezes tentando inclusive lhe agradar”, observa. Em outras palavras, quem pergunta mal recebe uma confirmação elegante do próprio erro.

É aqui que entra o que Loureiro chama de olhar sistêmico. Na advocacia, o problema que chega ao balcão raramente é o problema inteiro. “Ninguém sai de casa querendo um processo judicial. As pessoas querem resolver uma dor”, explica. Por exemplo, quem procura um advogado para um divórcio carrega também a guarda dos filhos, os planos desfeitos e o patrimônio dividido. Da mesma forma, o empresário que pede uma tese tributária pode precisar, na verdade, reorganizar o negócio.

Esse tipo de leitura, segundo ele, continua fora do alcance da máquina. “A inteligência artificial pode fazer petições fantásticas, mas que nunca vão conseguir entender de fato o cerne da questão”, afirma. O julgamento justo e sensível, completa, segue sendo tarefa humana.

Há também o lado de fora dos escritórios. Loureiro lembra que golpes antigos ganharam versões mais sofisticadas com a IA. Para ele, o Direito precisa acompanhar essa evolução, sob pena de perder o controle sobre o uso da tecnologia. Portanto, a discussão não se limita à produtividade: envolve regulação, responsabilidade e segurança do cidadão.

A saída que ele propõe não passa por menos tecnologia, e sim por mais formação. Como coordenador nacional de pós-graduação do Grupo Ser Educacional, Loureiro tem levado a IA para dentro da sala de aula. O objetivo é ensinar o que ela faz bem e o que ela não deve fazer sozinha. “A gente não pode mecanizar a nossa atividade”, conclui. “Precisamos fazer da inteligência artificial uma ferramenta para potencializar os nossos resultados, mas também ter cuidado com que tipo de resultado a gente está potencializando.”

Essa preocupação com a formação é, aliás, o tema da tese de doutorado de Loureiro. A Revista Paradigma aprofunda o assunto em outra matéria desta série: por que as faculdades ainda preparam alunos para um cenário que já não existe.

Entrevista exclusiva concedida ao Grupo Paradigma para a revista Nomes que Honram Pernambuco (Ed. 3). Verificação de dados: Quadro da advocacia – Conselho Federal da OAB; Recomendação CFOAB nº 001/2024 sobre IA generativa (OAB-PR).