Desde 07 de maio tem o voo Recife-Praia, que sai toda quinta. Cruza o Atlântico em três horas e meia. Pousa na Praia, capital de Cabo Verde, sem escala em Lisboa e sem as antigas doze horas de viagem. Para a maioria dos passageiros a bordo, é turismo. Para Rafael Toscano, diretor regional Norte-Nordeste da Câmara de Comércio, Desenvolvimento e Integração Brasil-Ecowas, aquele voo significa outra coisa: é a porta de um bloco de 15 países. É também a prova de que a África Ocidental deixou de ser promessa distante para virar rota comercial concreta.

A guinada não nasceu de entusiasmo gratuito. Nasceu de necessidade. O tarifaço americano encareceu parte das exportações brasileiras em 2025. Empresas do país passaram, desde então, a procurar mercados alternativos com mais urgência — é o que confirma a diversificação de destinos de exportação, hoje pauta corrente entre exportadores brasileiros. "E a África?", foi a pergunta que Toscano diz ter se feito quando viu Paraguai, Índia e China virarem destino óbvio de todo mundo. A resposta, segundo ele, estava num continente que a maioria dos empresários brasileiros ainda trata como risco. Não como a oportunidade que a África Ocidental de fato representa hoje.

Os números, porém, mudaram de sinal. O Banco Africano de Desenvolvimento projetou crescimento robusto para o continente em 2025, mesmo em meio a ventos contrários globais. Segundo a projeção de 2025, PIB africano deveria avançar entre 3,8% e 4,2% no período, ritmo superior ao da economia brasileira. Capital chinês financia estradas, portos e ferrovias onde antigos colonizadores europeus recuavam. O resultado é uma disputa silenciosa por influência que Toscano resume sem rodeios: "chegou dinheiro chinês, aí os grandes parceiros colonizadores antigos ficaram se perguntando, cadê eu aqui?". Fundos europeus e britânicos também voltaram a mirar a região, atraídos pela mesma corrida por espaço na África Ocidental.

Cabo Verde ocupa um lugar peculiar nesse tabuleiro. “O grande diferencial de Cabo Verde realmente é a capacidade deles serem um hub entre Brasil e a África, por estarem próximos, por falarem português e terem excelentes condições fiscais e alfandegárias. E isso realmente é o ‘x’ da questão para insistir em Cabo Verde como a primeira parada antes de ir para o continente africano”, afirma. Não é, porém, segundo Toscano, um mercado de escala. O arquipélago tem cerca de 500 mil habitantes espalhados por ilhas que mal se comunicam entre si. Por isso, nenhuma empresa lucra rápido vendendo só ali. A força do país também está em outro lugar: um fundo soberano de cem milhões de dólares, criado para garantir financiamento de projetos. Soma-se a isso uma posição fiscal que o transforma em plataforma para operações voltadas ao bloco ECOWAS inteiro. "Ninguém veio com ideia de bloco", contou Toscano sobre sua missão empresarial ao país em agosto e setembro deste ano. Foram oito dias de reuniões com ministros, bancos e agências de desenvolvimento. 

É esse fundo soberano, aliás, que destrava o argumento comercial mais concreto da missão. Bancos locais podem financiar até 70% de um projeto qualificado. O fundo soberano garante metade desse valor, reduzindo o risco para quem investe pela primeira vez na região. Trata-se de um mecanismo do qual poucos exportadores brasileiros ainda ouviram falar. Mas já opera oficialmente: o próprio fundo soberano cabo-verdiano anuncia publicamente linhas de garantia para financiamento de projetos com sustentabilidade econômica, social e ambiental. É a engrenagem financeira, segundo Toscano, que torna a África Ocidental viável para quem nunca exportou para lá.

A Câmara Brasil-Ecowas, à qual Toscano pertence, não vende produtos: vende inteligência institucional sobre a África Ocidental. Ela agenda reuniões em Brasília com embaixadores e organiza eventos de apresentação para empresas brasileiras. Também atua como observadora internacional, autorizada pelos 15 países do bloco. Foi pela frente humanitária da Câmara que uma cooperativa de mulheres produtoras de manteiga de karité em Gana, Costa do Marfim e Burkina Faso ganhou visibilidade internacional. A Câmara convidou a Organização Internacional do Trabalho e a ONU, transformando uma agenda local em internacional. O projeto prova, segundo Toscano, que integração e desenvolvimento vêm antes do comércio, não depois. Os bastidores desse tipo de trabalho, a Revista Paradigma aprofunda na próxima matéria desta série — incluindo o caso de uma fabricante brasileira de dispositivos de defesa orientada a mudar de país dentro do próprio continente.

A nova rota aérea deve intensificar esse movimento: o aeroporto do Recife já registrou alta de 36,1% no tráfego internacional de passageiros entre 2024 e 2025. Enquanto isso, o resto do Nordeste ainda discute se deve ou não apostar na África Ocidental. Toscano, pelo visto, já decidiu.

Fonte: Entrevista exclusiva concedida ao Grupo Paradigma para Nomes que Honram Pernambuco. Dados complementares: Banco Africano de Desenvolvimento, Diário de Pernambuco e Fundo Soberano de Cabo Verde.