Em 2025, o déficit da previdência chegou a R$ 317,2 bilhões, segundo o Tesouro Nacional. O número já assusta sozinho. Para o advogado previdenciarista Bruno Vasconcelos Coutinho, sócio-fundador do Vasconcelos Coutinho Advocacia, com sede em Limoeiro e operação em Recife, ele mostra apenas metade do problema. A outra metade chega todos os dias ao escritório: gente doente, idosa ou sem condição de trabalhar, que precisa do sistema justamente quando as contas dele pioram.
“A gente está sempre vendo essa questão de déficit público na previdência, mas, por outro lado, também vejo uma população precisando cada vez mais”, resume Coutinho. Há mais de dez anos ele atua no direito previdenciário, do litoral ao Agreste pernambucano. Segundo ele, o país enfrenta um problema de duas pontas. De um lado, a despesa pública cresce. Do outro, cresce também o número de pessoas sem alternativa ao benefício.
Os números confirmam a primeira ponta. Em 2016, o déficit da previdência no Regime Geral foi de R$ 151,9 bilhões, de acordo com a Secretaria de Previdência. Nove anos depois, o valor nominal mais que dobrou. Além disso, o gasto total com aposentadorias, pensões e auxílios passou de R$ 1 trilhão em 2025. Isso equivale a 8,1% do PIB e a 42,9% de toda a despesa primária da União, segundo o Poder360. “Se você pega os últimos dez anos da previdência, ela realmente deu um salto para cima”, observa o advogado.
A segunda ponta aparece com mais nitidez no Benefício de Prestação Continuada, o BPC/Loas. O programa paga um salário mínimo a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda, mesmo que nunca tenham contribuído. De acordo com a Instituição Fiscal Independente do Senado, a despesa com o BPC cresceu 9% acima da inflação em 2025 e chegou a R$ 127,2 bilhões. O número de beneficiários, por sua vez, saltou de 4,7 milhões em 2021 para 6,4 milhões. Cerca de 70% da alta vem de mais pessoas atendidas, e não de reajustes individuais.
Esse é o público que Coutinho atende. Idosos, doentes e trabalhadores incapacitados formam boa parte da clientela de um escritório que nasceu no interior. Para eles, o debate sobre o déficit da previdência soa distante. O que importa é o benefício que chega, ou não chega, no fim do mês.
Ainda assim, o advogado recusa a tentação de tratar o déficit da previdência como ficção contábil. “As despesas públicas crescem, de fato. É inegável”, afirma. Essa franqueza o coloca num lugar pouco comum entre previdenciaristas. Ele defende o segurado e, ao mesmo tempo, reconhece que o caixa que paga o segurado tem limite.
Por isso, o problema tende a se agravar. Segundo as projeções citadas pelo Poder360, o gasto previdenciário deve subir de 8,1% para 9,1% do PIB até 2030, puxado pelo envelhecimento da população. Some-se a isso a pressão do BPC, que a IFI projeta entre 1,2% e 1,4% do PIB em 2035. Portanto, a conta que hoje pesa tende a pesar mais nos próximos anos.
Para Coutinho, esse cenário exige uma escolha política. “O governo vai ter que estudar o que se pode fazer”, diz. Aumentar impostos, a saída mais comum, esbarra num limite que ele considera já alcançado. Afinal, a carga tributária do país atingiu 32,4% do PIB em 2025, conforme o Tesouro Nacional. “Os impostos já estão nas alturas”, resume.
A resposta que ele propõe passa pelo mercado de trabalho, com menos tributos, regras trabalhistas revistas e mais emprego formal. É a tese que a Revista Paradigma aprofunda na próxima matéria desta série. Enquanto essa discussão não avança, o déficit da previdência segue crescendo pelas duas pontas. E quem está entre elas, o segurado, continua batendo à porta de escritórios como o de Limoeiro.
Entrevista exclusiva concedida ao Grupo Paradigma para a Nomes que Honram Pernambuco Ed. 3. Dados verificados em: Tesouro Nacional/Agência Brasil · IFI/Senado · Poder360.

